Diferencialidade revisitada:

a propósito dos lançamentos da 2ª edição revista e ilustrada de

História Diplomática Portuguesa [1]

 

Jorge Braga de Macedo[2]

 

Introdução

Este escrito visita de novo a “diferencialidade portuguesa”, termo que julgo descreve a abordagem de História Diplomática Portuguesa, incluíndo as constantes e linhas de força dos séculos XIX e XX - que iriam ser objecto do volume II[3].

Sem embargo, as primeiras palavras acerca deste livro devem ser para o Instituto de Defesa Nacional, que promoveu duas edições do seu primeiro e (até agora) único volume. Além desta razão de forma, há uma razão de fundo: a política externa exprime melhor a nação do que a interna.

Assim, a propósito do Bloqueio Continental: “A política é o primeiro e o último ponto de resistência” (p. 408). As constantes e linhas de força da história diplomática de um país pequeno envolvem “a confiança no recurso à comunidade nacional e aos seus corpos naturais internos para propor soluções e renovar o seu escol, quando outro se revela incapaz ou insuficiente para o resultado pretendido” (p. 27) – embora a “luta dialéctica entre o povo e as elites” nem sempre tenha permitido que estas salvem a colectividade.

Os patrocínios da 2a edição são fruto da confiança e simpatia das várias instituições mencionadas. Sem a Fundação Maria Manuel e Vasco de Albuquerque d’Orey e a Sociedade de Desenvolvimento da Madeira, desde logo, o Instituto de Investigação Científica Tropical não poderia ter-se associado como o fez às várias iniciativas em memória de Jorge Borges de Macedo, especialmente esta edição[4].

Também é devida homenagem ao Dr. Pedro de Avillez que, em circunstâncias pessoais difíceis, atendeu à expectativa do autor de um trabalho bem executado, como é a 2a edição com mapas e índice.

A dinâmica dos lançamentos nasceu nos patrocínios e no editor.

A presença do Presidente da Câmara Municipal do Porto no lançamento realizado no castelo da Foz, na presença do Curso de Defesa Nacional 2005-06, permitiu salientar com mais força o papel da cidade invicta enquanto corpo natural interno. É que a política externa do pequeno país, “a administração inteligente das suas virtualidades estratégicas” (p. 28) reflecte, agora como no século XVII as “duas habilitações essenciais da Europa: a unidade do Estado e a capacidade do regionalismo (p. 177)[5].

A presença de dirigentes da Faculdade de Letras permitiu evocar o local onde meu pai se formou e ensinou durante décadas, abrigando hoje em sala própria um Legado Bibliográfico com o seu nome, cujo Catálogo foi compilado ao longo de nove anos sob a direcção da Profª Maria do Rosário Themudo Barata. Ao registar a hospitalidade e agradecer a presença do Magnífico Reitor da Universidade de Lisboa, recorde-se que o seu predecessor usou da palavra por ocasião do lançamento do Catálogo na Faculdade[6].

A meu pedido, o Prof. Barata Moura dispôs-se a promover na Reitoria o encerramento das Comemorações do Legado assinado em 24 de Junho de 1996, na presença da viúva, da filha e da Profª Maria do Rosário. Dez anos (e três Reitores) depois, estávamos presentes no lançamento da 2a edição da História Diplomática!

Entretanto, temos comemorado os ensinamentos de Jorge Borges de Macedo através da frase “Saber continuar” (p.19) retirada da comunicação intitulada Portugal: um destino histórico[7]. Saber continuar é adaptar os valores de maneira a que aquilo que foi pensado para épocas passadas se possa projectar no futuro. Foi o que se pretendeu ao convidar jovens investigadores a interpretar a mensagem de um historiador e pedagogo que, assim o creio, sempre lutou contra o preconceito[8].

O Instituto Diplomático publicou as quatro comunicações apresentadas na mesa redonda Jorge Borges de Macedo: Saber Continuar conjuntamente com um trabalho quase inédito do autor, A Experiência Histórica Contemporânea, e com a minha apresentação no lançamento do Catálogo que despoletou esta dinâmica[9].

A esse respeito, o autor adverte “aqueles que dão prioridade ao económico, ao social ou ao ideológico estão em vésperas de, segundo a imagem bíblica, trocar a maioridade da independência pelo prato de lentilhas” [10], esclarecendo logo que “primado do político não significa indiferença ao económico ou ao social, mas a segurança de que o militar, seu consequente, é a forma de garantia que as comunidades mais estimam (...) para conservar a sua segurança.” E dando como exemplos Israel e as sociedades africanas (p.39)[11].

Entre esta introdução e a conclusão, faço o ponto acerca das Comemorações do Legado, além de evocar uma interpretação que ilustra o alcance concreto da “diferencialidade portuguesa”.

 

Comemorações

História Diplomática Portuguesa regista a evolução de uma nacionalidade em função das instituições de governação a todos os níveis, militar e municipal, civil e nacional, entre a “primeira conjuntura” em 1071 (p.42) e a “dualidade” Europa/Atlântico que se seguiu ao Congresso de Viena (p.431). Temos como que a continuação do Volume I na última secção de Portugal: um destino histórico (intitulada “A Crise do Destino”), referente aos séculos XIX e XX, ao passo que o pós-25 de Abril é tratado em A Experiência Histórica Contemporânea (p. 20-23)[12]. História Diplomática não contém pois o relato minucioso de operações diplomáticas que constituem os actos da política externa (p.29).

Foi-me lançado o repto de se editar o Volume II em 2007. Pessoalmente duvido, porque existem inúmeros apontamentos de inúmeros alunos e a validação de um trabalho que ainda está em estado muito desigual promete ser demorada[13]. Mas pedia a Deus que me ajudasse a aproveitar a dinâmica dos lançamentos. Primeiro no Castelo da Foz, perante um público que reflecte a instituição militar e num local que ilustra a ligação do autor ao Douro.

Seu pai, José de Macedo, natural de Gaia, pensava estes assuntos de níveis de governação em termos nacionais e internacionais e escreveu em 1910 Autonomia de Angola, livro reeditado pelo IICT em 1987 com prefácio do filho[14]. Aí adianta até que ponto a dimensão municipal nos ajuda a compreender a lusofonia. No capítulo final, intitulado “Angola e a República”, encontra-se “…a revelação dramática de um republicano conhecedor do que dizem os problemas governativos e a expressão da sua amargura, ao compará-los com a irreversível realidade angolana que ele tão bem conhecia: no seu espírito perplexo, surge o imenso receio que, para além de uma linguagem um pouco diferente, continuasse a manifestar-se a doença centralista, as suas cautelas inúteis, as suas limitações de mais operosa e prevenida expressão. Os acontecimentos, as ocorrências concretas, a errada escolha de muitos novos dirigentes, a ligeireza das decisões é o que ressalta, agora, deste novo e inestimável testemunho. Estariam os novos dirigentes conscientes do que significava - ou teria de significar - em Angola, a República?”

Depois do Castelo, a Reitoria. O lançamento em Lisboa seguiu-se a um conjunto de iniciativas muito participadas da Hemeroteca Municipal entre 18 de Março (quando passaram dez anos da morte de meu pai) e 25 de Maio[15]. Portanto, há mais um município nestas comemorações dos dez anos da morte de meu pai, da cidade onde ele nasceu, viveu e foi sepultado. E o Dr. Álvaro da Costa Matos está a organizar um livro sobre estas iniciativas, em parceria com o IICT.

 

Diferencialidade

A diferencialidade de um país, no fundo, reflecte a competitividade da economia encarada numa óptica de política, a que já chamei “competitividade +”. Sabe-se que a competitividade é outra vez um problema para Portugal, mas não se reconhece que a falta de competitividade reflecte a falta de diferencialidade, tal como o autor a define em escritos publicados entre 1978 e 1994:

“A defesa e a demonstração das potencialidades das pequenas nações é um projecto em que Portugal pode admiravelmente participar. A nossa cultura, a nossa gente sente-se realizada nessa busca da diferencialidade pelo particular na sua teorização”[16]:

“O quadro político é realmente um factor essencial dentro da dimensão do homem português. É a escala característica, fundamental, que preside à defesa da diferencialidade” [17].

Mais: A Experiência Histórica Contemporânea aplica este conceito de diferencialidade à própria Europa, porque só um conceito de integração europeia respeitador da diferencialidade nacional é verdadeiramente europeu (p.23). Por outras palavras, “ser europeu fora da Europa não dá unidade ao europeu”, pelo que os países dentro da Europa se devem empenhar num “projecto comum, com um padrão de desenvolvimento não só próprio como global que sem enfraquecer, sustente a diferencialidade política, intrínseca à Europa e fortaleça esta última” [18].

São visões que reflectem a diferencialidade dos pequenos países sem internacionalismo naif nem chauvinismo nacional. Mais uma vez, a história diplomática tem sido escrita na óptica das grandes potências, desprezando a pequena dimensão. Sem a pequena dimensão, a análise limita-se a organizações que, como é o caso dos impérios, sendo estatais, às vezes ultrapassam a nação[19]. O autor de A Experiência Histórica Contemporânea sempre duvidou que a uniformidade imposta pelos impérios vencesse as nacionalidades, mas não estava tão preocupado com os Estados Unidos como com a ex-União Soviética. Paradoxalmente talvez ele considerasse que nós só conseguíamos entender a nossa identidade através da diferença, já que diferença exige comparação. Ora, muitas vezes, caía-se no excesso de chauvinismo que também é uma maneira de não comparar. Assim, ou se fazia deduzir tudo o que passava em Portugal do que acontecia lá fora ou, pelo contrário, se dizia que Portugal não tinha nada a ver com as outras nações, era completamente diferente e, portanto, não se conseguia comparar.

Passo a apresentar os três pontos que correspondem à organização do prefácio, uma maneira de ler História Diplomática Portuguesa em termos de diferencialidade[20].

 

Didáctica universitária

Como adverte o autor (p.29), o material para este livro começou a ser acumulado em 1965 na Faculdade de Letras como uma tentativa de explicar a história económica e social em termos de continuidade, recorrendo à política externa como crivo da política interna. É que, nas pequenas potências, as opções de política interna só se tornam credíveis, e portanto só conseguem mobilizar as populações, se forem autênticas. Como é que se afere a autenticidade, a credibilidade da política externa? Não é só pela diplomacia tal como se define habitualmente, mas sim pela cidadania, reflexo da cultura política.

O autor define este livro como didáctica universitária, ou seja está escrito para quadros exigentes (p. 17, 30). Daí a óbvia dimensão militar, Força Aérea, depois os outros ramos que contribuiram para a génese deste livro. O IDN interessou-se pelos artigos que começaram a sair na Revista Nação e Defesa a partir do seu número 2, em Novembro de 1976 e em mais doze números até ao 35 de Julho-Setembro de 1985, altura em que chegou ao fim da secção 2 do capítulo VI “O confronto das hegemonias 1767-1815”, “A independência dos Estados Unidos” (p. 337), tendo as restantes treze secções sido publicadas em 1987, na 1a edição do livro.

Aulas, artigos e livro foram assim instrumentos sucessivos de consciencialização dos quadros, testados na Faculdade de Letras, no ISCEF e depois na Universidade Católica[21]. Didáctica universitária é pois esta ideia de formar quadros, explicando a diferencialidade portuguesa a pessoas concretas. A todos os que o conheceram, sabem que o lado histórico que ele tinha não era abstracto, era concreto.

Se, no espírito da didáctica universitária, quiséssemos encarar este livro na óptica das relações internacionais, a maneira de encorajar tal saber continuar deveria permitir que se apreendesse a importância do pequeno país. Ou seja, poderia deduzir-se da seguinte injunção: Morgenthau lê Macedo![22]. A perspectiva comparativa está presente nas comunicações apresentadas na mesa redonda, sobre a Europa, o Arquivo Histórico Ultramarino e o liberalismo, ressaltando a diferencialidade em cada uma delas[23].

 

Cultura política

Como definir uma cultura política portuguesa concreta? Numa entrevista publicada em 1986 em que perguntavam se achava que a nossa cultura estava ameaçada, meu pai respondeu que “as culturas estão sempre ameaçadas”. E depois: “Temos de saber que a ameaça à nossa cultura não impende exclusivamente sobre ela. Além disso as culturas imperiais que transportam essa ameaça têm sempre o mesmo ponto fraco que é a generalidade soberba com que aplicam ao insaciável particular humano, esmagando-o no abstracto compulsivo. E logo essa particularidade ressurge, acaso modesta, mas indestrutível e feliz” [24].

O império começa por ser concreto, ninguém vai negar o grande nacionalismo americano, mas há a tentação de o uniformizar. Tentação que também existe na Europa, e por isso exige a diferencialidade dentro da Europa e do mundo[25].

No concreto da cultura política portuguesa incluem-se vários aspectos, um dos quais tem a ver com a “cooperação estratégia entre órgãos de soberania”, de que se fala muito agora. Está ligada à discussão da separação dos poderes e até à questão da cooperação intemporal relativamente a reformas estruturais. Assim, a reforma da segurança social deve ter em conta a sequência de reformas que permite a um país combinar a justiça social com a eficiência económica ao longo do tempo. Dado que estas reformas são impopulares, como é que se consegue vencer a resistência dos poderes instalados sem resvalar para a ditadura nem para a crise financeira?

Como é que se consegue fazer isso? A expressão que meu pai usa aqui é a de separação cooperante dos poderes, acrescentando que é a que os portugueses têm preferido (p. 19)[26]. A separação dos poderes, quando é extremada (executivo para um lado, legislativo para outro, judicial contra tudo e contra todos) corrói a comunidade nacional. Começa a criar divisões artificiais e depois reforça os interesses instalados e impede as reformas. Embora aplicável apenas a regimes democráticos, este conceito de “separação cooperante” permite compreender a complementaridade dos corpos naturais interessados na defesa e segurança nacionais, elemento fundamental da diferencialidade portuguesa desde os primórdios da nossa independência.

Assim vejam-se exemplos de separação que não tem a ver com órgãos de soberania mas com instituições do estado, e reparemos na dificuldade em que a separação seja cooperante: universidades e laboratórios de estado, ramos das Forças Armadas, forças militares e policiais, são exemplos simples e depois há o Ministério das Finanças relativamente aos chamados ministérios gastadores, que é mais complicado. Em suma, há muitos exemplos desta necessidade de separação cooperante e da dificuldade em chegar à cooperação intemporal. Esta dimensão da cultura política portuguesa prende-se com a ligação do externo ao interno ao longo do tempo e evoca naturalmente o futuro nacional.

 

Futuro nacional

Com certeza estamos preocupados com o futuro, porque quem se interessa pelo passado e vive o presente tem sempre uma perspectiva de futuro. Aqui a palavra-chave é futuro nacional.

A interpretação que faço do que se retira deste trabalho é que as pertenças dos portugueses à Europa e à lusofonia acabam por coincidir com os períodos em que se pode afirmar essa diferencialidade, quer dizer, apoiar apenas com a política externa uma política exclusivamente europeia. Seria socialmente mais aceitável ligar a Europa à lusofonia e era a maneira como ele via o assunto[27]. Tenho algumas indicações que confirmam precisamente que esta aposta na lusofonia como conjuntos diversos podia resultar. Mas, como meu avô receava se viesse a verificar em Angola em 1910, existiram tentações centralizadoras de abafar a diversidade dos países lusófonos quando é essa a principal mais-valia da lusofonia e da CPLP. Aquela uniformidade, aquela abstracção compulsiva são incompatíveis com a diferencialidade lusófona e esta é uma exigência da lusofonia como bem comum[28].

Antes de concluir, queria ler excertos do próprio livro tentando com eles reflectir preocupações do nosso presente.

Uma extensa nota sobre a burguesia mostra como o autor questiona os preconceitos, por mais fortes que sejam, dando também um exemplo do estilo: “Porquê a Burguesia?” Este chavão, cronologicamente peripatético, tem sido colocado, como a nata das explicações, nos mais variados acontecimentos da história portuguesa por um simples termo, acalmam-se na verosimilhança actualista os esforços para uma segura compreensão do fenómeno histórico mais complexo. Crítica, nenhuma. Faltam-lhe todas as condições preliminares de uma hipótese científica: base documental, prova específica da intervenção em cada momento, falta do veículo realizador dos projectos. Mas que “classe” era essa que dispunha de um vedor da fazenda no “aparelho do Estado” (empregando já o calão propiciatório à injunção) sem ter tido sequer recursos para a sua própria organização profissional? E vamos esquecer a situação peninsular, a cidade de Lisboa, as preocupações da corte, para assentarmos no que até hoje ninguém conseguiu definir ou isolar operativamente: a “burguesia” portuguesa no princípio do século XV?!” (p.78, nota 1) [29].

A questão de ligar à burguesia a expedição a Ceuta em 1415 vem assim tratada na mesma página do texto: “Tem-se considerado a conquista de Ceuta à luz de factores que a sociedade da época não vivia, nem analisava com as nossas prioridades, como seja à luz de factores religiosos, económicos ou sociais. Eles podem, muito naturalmente, ser hoje encontrados com os meios de pesquisa de que dispomos, uma vez que lá estavam na integralidade da época” (p.78).

Referido ao tempo, o conceito de integralidade equilibra assim a diferencialidade do espaço nacional. Sem a mencionar, a integralidade está presente quando se deduz da Batalha de Alcácer Quibir a perda do rei, não da independência (p. 154): “A história de D. Sebastião tem sido apresentada sempre como o enunciado dos acontecimentos concretos até à batalha, desde muito antes dela ter ocorrido: como se fosse o rei que a tivesse procurado. Esta outra forma de determinismo – o fatalismo histórico- tornou todo o estudo da época dependente daquele acontecimento tornado essencial para os anos seguintes como para os anteriores. Erros de método e de formação crítica. Resultado da interferência das intenções sobre os factos a estudar.” (p.152) [30]

Consequência incontornável da “luta dialéctica entre o povo e as elites” (p. 23) referida no início é “o papel de uma força, raras vezes considerada relativamente a esta época, mas onde, no entanto, tinha incontestável poder: a opinião pública” (p.232). Para além do exemplo do século XVII a que alude o texto a opinião pública é.

Além da instituição militar e da sociedade civil, outra linha de força é a Igreja. Das muitas que se encontram no livro, saliento a maneira como o Marquês de Pombal internacionalizou a luta contra os Jesuítas para conseguir contrariar a influência positiva que tinham sobre a sociedade portuguesa, porque foi um caso em que triunfou a ideologia, conselho fatal para a diplomacia dos pequenos países: “Através dessa “subordinação” do rei absoluto à Igreja soberana poderia, decerto, ordenar-se uma sociedade hierarquizada, sem o risco da sua transformação numa sociedade de castas e garantir a sua movimentação interna, dentro das responsabilidades típicas da sensibilidade política ocidental. Mas o certo é que os projectos que começavam a fervilhar nas sociedades europeias contemplavam, cada vez menos, estas exigências cautelares expressas na Igreja, encaminhavam-se abertamente para a expressão das ideologias como forma suficiente de manifestação do pensamento político. Não o era. Mas para o saber iriam levar dois séculos.” (p. 317) [31]

Através destes três exemplos (e outros haveria) fica claro que se pode falar do Sec. XV, do Sec. XVI, do Sec. XVII, do Sec. XVIII como se fosse agora, desde que nos ajude a perceber o futuro nacional, como este livro indiscutivelmente ajuda: “Acrescente-se que o simplismo político vindo da Revolução Francesa de que as Nações se decalcam nas leis que as governam e que, mudando estas, as Nações também mudam, constituem o fundamento doutrinário dos erros fatais de Napoleão. Com efeito, após algumas resistências, as Nações reajustam-se aos novos tempos e recriam, para sobreviver, na sua insuperável função, outras vias e realizações, ajustadas a outro conjunto de exigências e tutelas, reformulando as suas aristocracias e a usa diferencialidade. A resistência das Nações perante todas a s tiranias, inclui a da sua própria maioria, quando ocasional e arbitrária” (p. 403)[32].

 

Conclusão

Volto a apelar para que, ao ler este livro, se tenha consciência de que é uma história interdisciplinar. Tem dimensão a militar, tem a dimensão política, tem a dimensão económica juntas, é essa a integridade da obra.

É um livro pedagógico, é um livro que se lê com facilidade e com gosto e é um livro que nos ajuda a perceber o futuro de Portugal. É um livro onde está presente a luta contra o preconceito que associo à herança de meu pai.

Posto isto, o livro é muito mais bonito que o livro anterior[33] Sem embargo de meia dúzia de gralhas, uma notável - até por não estar na 1ª edição (p. 298). Vamos ver se a mensagem, que já cá estava, consegue agora ir para além do que foi a primeira edição deste volume I, enquanto se prepara o volume II.

Vamos ver se, com a dinâmica dos lançamentos, esta iniciativa de Saber Continuar se volta a aplicar não apenas ao pensamento de Jorge Borges de Macedo mas ao contexto original que ele lhe deu em Portugal: um destino histórico. Saber continuar aquilo que nos une como portugueses e aquilo que nos leva a ter esperança num futuro nacional entre Europa e lusofonia. É que, se não soubermos por onde vai a diferencialidade portuguesa, arriscamo-nos a não saber enfrentar situações novas, como a de uma hegemonia marítima sobre o continente europeu a que alude o último parágrafo de História Diplomática Portuguesa: “A potência que exercia essa hegemonia era a Grã-Bretanha que sempre tinha apoiado Portugal nos seus esforços para enfrentar a pressão continental. Ia agora decorrer a experiência inversa.” (p.431)[34].

Praia das Maçãs, 30 de Setembro de 2006



[1] Jorge Borges de Macedo História Diplomática Portuguesa Constantes e Linhas de Força. Estudo de Geopolítica Volume I 2ª edição revista e ilustrada Lisboa: Tribuna da História, 2006, 444 pp.+ XVI. Salvo indicação em contrário, os números de página referem-se a esta edição.

[2] Professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, Presidente do Instituto de Investigação Científica Tropical. Comentários de familiares e amigos ajudaram a melhorar textos apresentados em 30 de Maio e 22 de Junho. Este foi escrito em Santa Cruz, Califórnia, em 28 de Maio, por sinal no primeiro aniversário do casamento do João e da Joana. Ora foi em casa deles, em San Francisco, que durante as férias de Natal escrevi um prefácio longo, que publiquei com o título “Por onde vai a diferencialidade portuguesa?”, Negócios Estrangeiros, número 9.1, Março de 2006, pp. 38-53. Como de costume, as referências pessoais julgadas convenientes encontram-se em nota. Na última, invoco a memória do padre Burguete, que morreu em 5 de Setembro, quando terminava a revisão do texto.

[3]  Por onde vai a Economia portuguesa?, publicado em 1969, é um título famoso de Francisco Pereira de Moura, que  ensinou meu pai no antigo ISCEF e depois ajudou a publicar a tese de doutoramento. Ver “Por onde vai”, op. cit., p. 38 nota **

[4] Cumpre acrescentar uma referência ao Centro Português de Geopolítica, dirigido pelo Gen. Freire Nogueira, incansável promotor da 2ª edição enquanto subdirector do IDN. Deve-se ao terceiro patrocínio mais um lançamento, realizado em Coimbra, na Casa Municipal da Cultura, a 28 de Setembro. Até pela circunstância de ter sido proferida em Coimbra (como referido na nota 30 in fine), é de salientar a comunicação citada na nota 17 abaixo.

[5] Ver nota 16 abaixo e a ultima citação do texto, explicada na nota 28.

[6] Não esqueço que também foi a Universidade que me licenciou e onde, mancebo, ensinei economia política até ser mobilizado para Angola nos anos de brasa.

[7] Escrita em 1991 e dedicada a Joaquim Veríssimo Serrão, foi considerada “uma das suas comunicações mais emblemáticas” em Maria do Rosário Themudo Barata, Elogio do Professor Doutor Jorge Borges de Macedo (1921-1996), Lisboa: Academia Portuguesa de História, 2004, p. 49. Ver nota (16) abaixo.

[8] Ver no mesmo sentido a apresentação de Jorge Borges de Macedo: Saber Continuar, Lisboa: Instituto Diplomático, 2005 por Ana Leal de Faria no Arquivo Histórico Ultramarino em 15 de Fevereiro de 2006 em www.iict.pt. A luta contra o preconceito vem explicada ibid., p. 246 ss. O Dr. Francisco Mantero costumava dizer que meu pai “trata a história por tu”.

[9] A citação da comunicação referida na nota 7 acima encontra-se ibid., p. 251. As comunicações apresentadas na mesa redonda são seguidas de testemunhos vários que deram origem a vivo debate, também reproduzido ibid, além do resumo do moderador, pp. 103-106. Quanto às iniciativas previstas (FEUNL, Universidade Católica, Academia das Ciências, Sociedade de Geografia e ISEG), vêm enunciadas ibid., p. 104, 226 e 229, estando a segunda prevista para 28 de Novembro. Além disso Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, apresenta no Banco de Portugal em 16 de Outubro (data inicialmente prevista para a primeira iniciativa) um seminário sobre globalização e democracia em memória de meu pai.

[10] Como frisei em ambas as ocasiões, o meu treino profissional e académico, não me impede de aceitar esta posição, antes pelo contrário.

[11] Quanto a Portugal, “a constante da sua situação e o seu sucessivo e diferenciado aproveitamento não são conceitos óbvios”(p. 41, itálico nosso).

[12] As partes referentes ao enquadramento internacional e doméstico constituem os dois primeiros capítulos (pp. 27-57 e 59-100 respectivamente) de Saber Continuar, op. cit.

[13] Além disso, exige-se a consulta ao Espólio Documental, que ainda não está catalogado, apesar dos esforços do legatário Dr José Brissos. Ver Saber Continuar, op. cit., p. 232.

[14] E a maneira como ele apresenta o pai, julgo que diz alguma coisa sobre ele próprio: “Não é decerto o seu autor, tão hábil no diagnóstico prudente e na apresentação franca e bem argumentada de um tema de tanta urgência e interesse, um exaltado ou um teórico, saturado de abstracções deduzidas das suas exigências doutrinárias. Pelo contrário. Era um observador insistente, um estudioso e crítico da realidade portuguesa metropolitana e colonial, habituado a debates e a confrontos de ideias. De opiniões claras, mas tolerante, para com os pontos de vista que divergiam dos seus, preocupava-se, sobretudo, com o “lado humano” das ideias, numa expressão que é a sua.” Neste lado humano estão as raízes nortenhas de meu pai (sua mãe era transmontana).

[15] A nova série desta Revista, onde publiquei “Por onde vai”, versão longa do prefácio citada na nota 2 acima, também veio a lume em Março.

[16] As condições da esperança, p. 44, citado em Saber Continuar, op. cit. p. 233 e “Por onde vai”, op. cit. , p. 38, nota (***).

[17] Política, nacionalidade e conquista da cultura, p. 122, citado em Saber Continuar, op. cit. p. 241 e “Por onde vai”, loc. cit.

[18] Saber Continuar, op. cit. p. 64 e “Por onde vai” loc. cit..

[19] Quanto ao século XVIII “os principais Estados europeus comportavam duas dimensões e dois comportamentos, a nacional-regional e a central (...) O Iluminismo generalista da França subalternizada a nação, aliás de acordo com as conveniências estrategicas do estado francês” (p. 279).

[20] Também corresponde às três secções em que está dividido “Por onde vai”, op. cit. No lançamento do Elogio citado na nota 2 acima falei no “internacionalismo para além da circunstância” de meu pai. Ver ainda Saber Continuar, op. cit. p. 228.

[21] Os apontamentos existentes para o Volume II são sobretudo de alunos desta (p. 31). Ver ainda Saber Continuar, op. cit., p. 244.

[22] Na sua apresentação deste volume, p. 14, reproduzindo o que escrevera em Saber Continuar, op. cit., p. 107, “a diplomacia da realpolitik é um luxo das grandes potências”, João Marques de Almeida identifica Morgenthau como um discípulo de Ranke (p. 45). Como Morgenthau morreu em 1980, antes da publicação da 1ª edição deste livro, a injunção não passa disso mesmo. Ver ainda Leopold von Ranke, ‘The Great Powers,’ 1833 in The Theory and Practice of History, organizado por George G. Iggers e Konrad von Moltke. Indianapolis: Bobbs-Merrill, 1973, pp. 65-101 e o clássico de Hans J. Morgenthau, Politics Among Nations. New York: Knopf, 1948. Com a rarefacção das guerras entre as grandes potências, aumentou a relevância da óptica adoptada neste livro (p. 17, 26).

[23] Respectivamente Álvaro Costa Matos, op.cit. pp. 127-163, Ana Cannas, op. cit. pp. 169-191 (em coautoria com Conceição Casanova, Ângela Domingues e Pedro Pina Manique) e José Brissos, op. cit. pp. 201-214.

[24] Questões sobre a cultura portuguesa, p. 72-75; ver ainda Saber Continuar, op. cit., p. 234 e “Por onde vai”, op. cit. p. 45 nota 17.

[25] O texto citado antes da nota 11 continua: “Exceptuando as épocas imperiais (...), raras vezes a política externa está sujeita a situações sem alternativa.”

[26] Saber Continuar, op. cit., p. 77 e “Por onde vai”, op. cit. p. 46.

[27] Saber Continuar, op. cit., p. 251 e “Por onde vai”, op. cit. p. 48.

[28] Exprimo o desejo de debater a lusofonia como bem comum nas comemorações dos dez anos da morte de meu pai em Saber Continuar, op.cit. p. 252, nota 31 in fine. Contudo, a data do evento sobre “Memórias e Identidades Lusófonas” previsto em Saber Continuar, op. cit., p. 104 ainda não está fixada, tal como a das iniciativas enumeradas aí e na nota 8 acima, excepto a da Universidade Católica.

[29] Saber Continuar, op. cit., p. 248 e “Por onde vai”, op. cit. p. 41, nota (10). Devo ao meu sobrinho António, presente no Porto, a ideia de citar esta nota, que alude a António Sérgio. Em Lisboa, em resposta a uma pergunta do Dr. Francisco Mantero, a mesma nota ilustrou o papel da opinião pública citada inúmeras vezes no livro (205, 226, 232, 272, 288, 292, 303, 316, 317, 327, 332, 344, 363, 386). Ver abaixo no texto.

[30] Nesta abordagem também aflora a luta contra o preconceito, aliás relevante para o debate sobre o Mediterrâneo e o chamado processo de Barcelona. Citam outras passagens e um texto publicado em 1978 na Resistência – revista de cultura e crítica dedicado a Mário de Albuquerque, e que também apareceu no Estado de São Paulo em Saber Continuar, op. cit., p. 249-250 e “Por onde vai”, op. cit. p. 42. Ver ainda “Mar da memória comum”, Diário de Notícias Suplemento Economia 12 de Junho de 2006 onde cito este livro e a passagem do escrito citado na nota 17 acima, baseado numa conferência aos Rotários de Coimbra, donde retirei o excerto citado no prefácio, p. 23.

[31] Esta passagem é citada em Saber Continuar, op. cit., p. 250 e “Por onde vai”, op. cit. p. 42.

[32] Ao ler esta linda edição na França profunda durante o fim de semana anterior ao lançamento, coleccionei muitas citações. Na Reitoria acabei por só citar a do texto, que descobrira naquela madrugada a contemplar a praia do Mindelo (aquela que é visível na minha página pessoal www.prof.fe.unl.pt/~jbmacedo e foi publicizada pela capa do Expresso de 17 de Junho)..

[33] Sem embargo de meia dúzia de gralhas, uma notável (p. 298) – até por não estar na 1ª edição (p. 263).

[34] Fora uns retoques posteriores, a revisão do texto ficou concluida no dia da missa de corpo presente do meu querido Padre Nuno Burguete, com quem tantas vezes evocámos meu pai e a quem prestei homenagem pelos seus 70 anos em www.prof.fe.unl.pt/~jbmacedo/papers/rodizio.html. Dedico este texto à sua memória.