A herança de Jorge Borges de Macedo:

Uma escolha familiar

 

 

Jorge Braga de Macedo[1]

 

 

Introdução

 

 

A 22 de Fevereiro de 2005, na Academia da Marinha, onde, com a Drª Gisele Borges de Macedo, fomos assistir a uma palestra inspirada por um escrito de meu pai, a Profª Maria do Rosário Themudo Barata disse-nos com evidente alívio “já está!” Referia-se à edição, pelo Centro de História da Universidade de Lisboa, de um Catálogo com 17433 rubricas, intitulado Professor Doutor Jorge Borges de Macedo Legado Bibliográfico. Dias depois, o Prof. João Medina, actual director do Centro, pedia-me para, na ocasião do lançamento do Catálogo, falar em nome dos herdeiros[2].

 

Além do Prefácio ao Catálogo, devemos ainda à sucessora de meu pai na Academia Portuguesa de História um Elogio do Professor Doutor Jorge Borges de Macedo (1921-1996). Foram 75 anos, mais de 75% dos quais pautados pelo ano lectivo, marcados pela morte do pai aos trinta, da mãe aos cinquenta e da mulher e da filha mais nova aos sessenta[3].

 

Anexo ao Elogio está a actualização – mais 67 escritos publicados depois de 1991 - da bibliografia constante do Itinerário de uma Vida Pública, Cultural e Científica (organizada pelos Drs. José Brissos, Ana Cannas e Ana Garcia). A bibliografia inclui 262 monografias e publicações periódicas, 43 entrevistas e depoimentos e 44 colaborações em dicionários e enciclopédias, obras didácticas e traduções, num total de 359 rubricas. O Catálogo, esse, inclui 128 trabalhos do próprio instituidor.

 

A 20 de Outubro de 2004, nas magníficas instalações da mesma Academia Portuguesa de História, recordei brevemente meu pai. Atribui-lhe então “um internacionalismo para além da circunstância”. Maugrado o “ismo”, estava a parafrasear um livro de 1988, Portugal-Europa para além da Circunstância que também a Profª Maria do Rosário salientara no Elogio[4].

 

Ao interpretar a herança, explicito que a atribuição equilibra a política nacional e o amor ao próximo, não só no espaço como no tempo. Este o espírito essencial de um texto dividido em três secções, além desta introdução de circunstância e de uma conclusão que o não é. Os aspectos pessoais são remetidos para notas, e as citações apresentadas em dezoito caixas de modo a salientar mais a prosa escolhida do que o seu porquê. Dentro destas citações, escolhi dez excertos, sublinhados e numerados de (1) a (10), que ilustram melhor a herança recebida. Talvez assim estimule, como desejo, a discussão à volta desta.

 

Agradeço mais uma vez ao Prof. João Medina a oportunidade de ler e reler os numerosos escritos que meu pai sempre me enviava e ajudar à preparação do congresso que o Centro de História e o IICT planearam organizar por ocasião do 10º aniversário de sua morte, a 18 de Março de 2006. É uma iniciativa aberta, à qual o Instituto de Defesa Nacional aderiu, nos termos do protocolo de cooperação assinado em 30 de Março de 2005, de modo a lançar nessa ocasião uma 2ª edição de História Diplomática Portuguesa: constantes e linhas de força[5].

 

Há muito que pretendia promover um evento que permitisse a investigadores mais jovens identificar e manter viva a herança de meu pai. Quando, em 2004, o seu neto mais velho se doutorou em sociologia, o seguinte iniciou um doutoramento em história económica na Universidade de York e o terceiro dedicou o seu Livro 7 Como Ser Surfista à memória do avô (e à noiva, com quem entretanto casou), percebi que tinha chegado a hora[6].

 

Assim, por ocasião do lançamento na Faculdade de Letras do Catálogo em CD, previsto para o 9º aniversário do Legado, terá lugar uma mesa redonda sobre meu pai, na qual deveriam participar professores mais jovens e doutorandos, como o legatário, Dr. José Brissos[7]. Também devia contribuir para o financiamento destes projectos comuns: quase sem querer, encontrei o patrocínio da Fundação Maria Manuela e Vasco de Albuquerque d’Orey, presidida por um velho amigo economista que gosta de história. Queria agradecer-lhe ex cordis, como o meu pai gostava de dizer.

 

A interpretação da herança baseia-se em dois valores, a integridade e a pedagogia, com os quais meu pai se defendeu contra o pré-conceito: apetece usar as iniciais PC, posto que representem “politicamente correcto” – a que gostava de chamar “politicamente oportuno” para salientar o seu distanciamento. Mas é um podão (outro qualificativo ao gosto paterno) o título correspondente à filial interpretação: Pela Integridade e a Pedagogia, Contra o Pré-Conceito[8].

 

Fico-me pois com o enunciado singelo do que tentei fazer: evocar em três pontos o equilíbrio entre política nacional e amor ao próximo procurado por alguém que funciona em três tempos, passado, presente e futuro[9]. A integridade reflecte uma preocupação constante com a cultura, a natureza e o conhecimento. Além de considerar imprescíndivel garantir a integridade do Legado Borges de Macedo (p. XIII), o Catálogo dá uma achega que liga a pedagogia à luta contra o pré-conceito, a que chama “impostura” e de que diz ser meu pai “opositor implacável”. Com a fineza costumeira, a Profª. Maria do Rosário justifica o tempo de reserva de vinte e cinco anos exigido para o Espólio Documental que “muito contribuirá, sem dúvida, para o correcto conhecimento ou identificação do século XX em Portugal” (p. XVI) [10].

 

 

1. Pela Integridade (P)

 

 

Para além do Legado e mesmo do Espólio, vejo a integridade como o ponto original da vida e obra de meu pai, na medida em que representa a respectiva finalidade. Quero dizer que nunca se satisfez nem com visões parcelares, por mais rigorosas que parecesse a análise, nem com falsas sínteses. Daí interpretar esta procura da integridade como a sintonização de um equilíbrio entre o bem comum dos portugueses e do mundo, tanto mais precário quanto é certo que não há política nacional digna desse nome sem segurança, nem amor ao próximo sem solidariedade. Talvez por isso tenha sempre atendido ao papel das instituições no desenvolvimento.

 

Em As condições da esperança[11], responde a cinco perguntas do Círculo de Estudos Sociais VECTOR (sobre Nação, expansão ultramarina, língua portuguesa, existência de uma portugalidade e de um projecto comum), com uma denúncia dos preconceitos em voga, fazendo a esperança depender da relação entre política nacional e amor ao próximo. A primeira citação revela o contexto internacional da integridade.

 

(Caixa 1, 128) A defesa e a demonstração das potencialidades das pequenas nações é um projecto em que Portugal pode admiravelmente participar. A nossa cultura e a nossa gente sempre se realizaram nessa busca de diferencialidade pelo particular, na sua teorização. (p. 44)...

(1) Portugueses, somos ecuménicos porque europeus, somo europeus porque ecuménicos (p. 10).

Na actualidade, a Guiné, Moçambique, Angola articulam, nos quadros do pensamento protuguês que receberam, o seu caminho próprio. E lembraremos uma já empolgante realidade, o Brasil? (p. 23)...

O estado democrático poderá ser um instrumento coerente para os casos médios da vida colectiva e tornar-se até expressivo da comunidade; mas só o consegue quando apoiado em instituições que funcionem hierarquicamente (p. 27)

 

Em Questões sobre a cultura portuguesa[12], responde a seis perguntas, sobre conceito de cultura, cultura portuguesa, rupturas culturais ao longo da história pátria, Brasil, Europa e ameaça à cultura luso-brasileira. Esta última pergunta invoca uma afirmação de Gilberto Freire e a resposta, para além de situar historicamente a afirmação, datando-a (1940), captura bem o espírito das restantes perguntas. A segunda citação ilustra a limitação das culturas imperiais que recusam o particular humano.

 

(Caixa 2, 228) Em meu entender, as culturas estão sempre ameaçadas. Em minha opinião, igualmente, isso não é um perigo mas uma vantagem, desde que as culturas tenham consciência dessa ameaça e possam estudar e considerar os meios ao seu alcance para lhe responder (p. 72)...

Mas não exageremos o perigo. Na verdade, não vejo nimguém, com excepção dos ideólogos do sistema – cada vez em menor número e cada vez mais medíocres – e dos tecnocratas de sempre – os anjos neutros de Dante – disposto a desistir da sua cultura nacional porque a considera de valor secundário. Esses sofistas do contemporâneo têm uma reduzida capacidade de difusão, embora constituam uma presença efectiva na vida do nosso tempo. Mas deve dizer-se que sempre existiram: são os neutralistas naturais que vendem a habilitação técnica a quem lhes paga. São mais uma negação da cultura do que um perigo para ela. (p. 74)....

(2) Penso, pois, que a situação não é de modo algum desesperada. Temos de saber que a ameaça à nossa cultura não impende exclusivamente sobre ela. Além disso, as culturas imperiais que transportam essa ameaça têm sempre o mesmo ponto fraco que é a generalidade soberba com que se aplicam ao insaciável particular humano, esmagando-o no abstracto compulsivo. E logo essa particularidade ressurge, acaso modesta, mas indestrutível e feliz. (p. 75)

 

Em “São Francisco e a natureza como recursos epistemológico permanente”[13], explica-se a ultrapassagem da escolástica olhando para a natureza “para nela fazer apelo à criação e às potencialidades que no homem se fixaram, como ser consciente e racional, qualificado, pelo amor, para a convivência universal.” Esta visão contrasta tanto com o dogmatismo como com o cepticismo.

 

(Caixa 3, 177) O homem não pode corromper aquilo que lhe foi dado para aí viver e se realizar, dentro da essência que o define. Portanto só quando dotado de amor e caridade, com a confiança na razão que lhe foi atribuída e nas potencialidades que lhe compete explorar, está em condições de ouvir ou sentir a Natureza, no que a sua mensagem permanente significa. (p. 217)...

A mensagem de São Francisco, em si mesma e nas suas implicações, continua a ter, também no domínio cultural e filosófico – outro qualquer não nos ocupa – a mais alta importância. Com efeito a cultura, como acto de interpretação global do mundo em que se vive, expressão da escolha de uma conduta, obriga sempre a que se ordene um conjunto de respostas coerentes às interrogações eternas do homem. Nesta conformidade, as culturas, realizações humanas, aspiram à permanência, à sobrevalorização das suas respostas, em dado momento elaboradas, supondo-se uma expressão definitiva. Noutro extremo, as interpretações culturais ao apresentarem-se como formulações conscientes, tomam a atitude de se considerarem sem autonomia nem expressão válida, relativamente à verdade (...): são ideologias. (...) A história será, pois, a sucessão intransmissível das “culturas” que o homem tem elaborado para sobreviver. (p. 218)

 

Em Ciência Histórica e Conhecimento do Homem, volta aos três tempos com uma frase arrebatadora. A terceira citação mostra a dimensão de esperança do particular humano, desde que haja memória: (3) “O anti-presente está na história e é a condição do futuro livre”. E revela como o determinismo doutrinário ameaça a integridade da pessoa, retirando-lhe o tempo. Também volta a denunciar a concepção céptica da cultura, incapaz de abarcar a multidimensionalidade da identidade[14].

 

(Caixa 4, 268) Quando a história passa a ideologia, a ciência do homem identifica-se com uma espécie de”física” social e os factos históricos são meros casos de leis, ainda que, por enquanto, mal percebidas. Na perspectiva do determinismo doutrinário são contudo já conhecidas com suficiente rigor para poder justificar a repressão dos contrários. Aqui começa o drama da sua “aplicação” social e política. Cultura, ainda que seja um estado de espírito, é, tão só, uma das formas de conquista ou conservação do poder. (…)

Nesta perspectiva, a história só servirá para dar conhecimento da anterioridade das sequências e fornecer ordem que integra o homem no seu determinismo inalterável: o homem torna-se unidimensional como disse Marcuse. Estamos perante uma anti-história, base essencial no seu dogma da irreversibilidade, para a ideologia das tiranias. (pp 32-33)

 

Se a preocupação constante de meu pai com a cultura, a natureza e o conhecimento reflecte este valor da integridade, também sugere como resposta a interdisciplinaridade[15]. Definiu assim o seu grupo de referência: “conjunto de historiadores preocupados com a dimensão complexa e pluridisciplinar do facto histórico e participa no debate que lhe pretende definir uma sequência própria e isolável como processo”[16]. A interdisciplinaridade, tal como a integridade, deve entender-se nos três tempos. Por mais rigorosas que fossem as deduções de uma interdisciplinaridade estática, não poderiam ter a integridade que meu pai viu nas obras de Camões ou de Pessoa. Deixando Os Lusíadas para a secção 3, tais deduções estáticas não ajudariam a perceber o “processo existencial da escolha” na Mensagem, porquanto este processo tem uma finalidade. Em Fernando Pessoa: Tempo e História, encadeia os três tempos através da esperança, sustento afinal da sua herança[17].

 

Caixa 5, 277) A dignidade atribuída ao passado eleva o presente. Aquilo a que Fernando Pessoa chama a Hora. Este conceito de “hora” é-lhe fundamental, tanto na poética como na estética, como também no esoterismo….

Deste modo, coloca ao português a área da esperança, não no domínio de uma história bem sucedida ou dos feitos históricos que ela comporta, mas no campo de considerar o modo português de ser como rico de diversidade, autenticidade, pureza e universalidade realizada.…

Escolhia, para justificar a indispensabilidade da história na cultura portuguesa a atribuição de uma finalidade ao homem português. E se a colocava na área profética, caber-nos-á a nós, certamente, dar-lhe um conteúdo imediato. Mas do diagnóstico de Fernando Pessoa não podemos fugir: o português, a história de Portugal precisam de futuro. Passado é certo que teve e não foi bruma. (pp. 162-163)

 

Observação, Cultura Científica e Descobrimentos[18] trata em detalhe a interdisciplinaridade, salientando as “outras faces do real” numa procura de síntese entre as memória e a vivência, como dirá em A Biblioteca Nacional, citada na secção 2.

 

(Caixa 6, 311) A audácia de querer “ver” o que está para além da realidade conhecida em termos de espaço fez os descobrimentos. Mas não foi acompanhada, temos de dizê-lo, pela audácia de pensar o observado, no sentido de que está para alem do visto com os olhos da racionalidade para chegar a outras faces do real e de conceber outras “possibilidades” disso que se vê como real...

Com isso – o que é pior - encobrimos as grandes qualidades da nossa gente e a sua grande contribuição que é o gosto pela observação cuidada, para darmos uma impressão de jactância que só domina alguns de nós e não decerto os mais representativos, mas existe e publicita-se!

Voltemos ao actual…podemos ultrapassar essas insuficiências se, para tanto, tivermos humildade e lucidez na sua interpretação, visto termos sido capazes de enfrentar o grande desafio contemporâneo. Poderemos continuar a sê-lo.

Estamos em excelentes condições espirituais para o conseguir, pois uma das grandes condições contemporâneas mais difíceis para tanto faz parte intrínseca do nosso património científico – a interdisciplinaridade – elemento característico da nossa tradição cultural. Interdisciplinaridade que tem uma expressão lídima e constante no espírito médico português, admiravelmente expresso em Garcia de Orta. (311, p. 167-168)

 

Em Política, Nacionalidade e Conquista da Cultura[19], define o Rotário como “uma espécie de consciência moral da Classe Média e da sua responsabilidade pública.” E continua “por todo o mundo onde também predomina, quer se queira quer não, o conceito de pessoa por um lado e o conceito de próximo, por outro, sente-se a falta do Rotário”. Isto porque “Importa encontrar uma regra comum, um consenso que seja estimulante e responsável pela procura do bem acessível” (p. 122)[20]. Recorrendo ao conceito de próximo, toma posição na quarta citação contra o chamado choque de civilizações, deixando implícita uma ligação entre pedagogia e amor ao próximo[21]. Depois do problema geral, passa ao “problema particular português”, marcado por “um debate subjacente e cauteloso, como aliás são todos os debates e as polémicas portuguesas”. Na quinta citação, surge o problema da renovação do escol nacional deixada em aberto a partir do século XIX no Prefácio da História Diplomática Portuguesa.

 

(Caixa 7) O fenómeno contemporâneo da comunicação social, da interpelação que os homens fazem uns aos outros relativamente à própria civilização que cada um tem, leva-os a tomar consciência das diferenças sem que daí se siga uma atitude de agressividade e eventualmente um choque de civilizações. Para tanto, terão de existir outras razões mais empolgantes. Poderá resultar do debate do debate uma consciência maior da diversidade, mas não, necessariamente, a supressão dela. Isso levar-nos-ia à suposição de que o conceito de eficácia será igual em todas a civilizações. Ora sucede que não é igual em todas as civilizações. Assim como não o é em todas as sensibilidades. (...)

(4) O fenómeno na universalidade não é hoje, necessariamente, um fenómeno essencial à composição das sociedades em estruturas uniformes. Passa por outras formas de convivência, onde o problema fundamental é o problema da segurança dentro da comunidade.

No meu entender, essa posição vem directamente da civilização judaica, a passar para o cristianismo, em termos de responsabilidade pessoal que é o conceito de pessoa humana e o conceito de próximo... Envolve e desse modo altera, por completo, a relação de civilização....Quer dizer, o conceito do próximo tem uma noção mais ampla do que o conceito de civilização. (p. 124-125)

É a doutrina do Portugal ocasião, do Portugal circunstância, derivado de um lugar. Será uma mera forma oportuna de viver! Pelo contrário a outra posição que se lhe opõe e se debate, sobretudo desde há aproximadamente 20 anos, sem que apareça um escrito a mencionar a posição “essência de ser” contra a posição “circunstância, ocasião, oportunidade”. Contudo, a posição “circunstância” opõe-se à posição “realidade nacional”….

(5) Quando é necessário definir um sentimento de independência, a posição de circunstância nem sempre é entendida. Quando nos supomos uma essência, nem nos queremos definir! Em que ficamos? Como explicar esta incongruência?...

A luta dialéctica entre o povo e as elites é a nossa explicação. Quando as elites, transformadas em aristocracias, se não mantêm naquela categoria, isto é, como pessoas de qualidade a quem recorremos para salvar a colectividade, obrigamo-las a cumprir o seu dever! Como conjunto de pessoas responsáveis que são a Nação portuguesa, se a não defendem, são implacavelmente substituídas. (p.125-126).

O quadro político é, realmente, um factor essencial, dentro da dimensão do Homem português. É a escala característica, fundamental, que preside à defesa da diferencialidade (…). Ao lado do comentário estético do real, fabrica mitos e lendas. A primeira dinastia já os teve. E se hoje nos tocam menos, pertencem ainda ao subconsciente colectivo (p. 129).

Em contrapartida (aos países do Norte), nós, portugueses, entretivemo-nos a considerarmo-nos uns miseráveis, enquanto os nossos próprios emigrantes venciam no Brasil e na América do Norte, em Hawai, etc! …

O desafio surge perante nós! Não esqueçamos o aspecto político, nacional e internacional. Se não esquecermos a responsabilidade, encontraremos as elites essenciais e teremos as aristocracias como circunstanciais…

Estou certo que com Assembleias como esta, com conjuntos como este é que nós queremos que se constitua a vaga necessária que sempre tem surgido na sociedade portuguesa em todos os momentos graves da sua existência (p. 137).

 

Estas sete caixas e cinco citações não podem estabelecer o conceito de integridade na obra de meu pai, mas tão só sugeri-lo como um breviário na busca da multidimensionalidade da identidade do homem, escorada no equilíbrio entre a política nacionale e o amor ao próximo. Como se viu, este equilíbrio projecta-se na cultura, na natureza e no conhecimento.

 

 

2. Pedagogia (P)

 

 

Para se projectar na cultura, na natureza e no conhecimento, o equilíbrio entre a política nacional e o amor ao próximo deve ser comunicado, sob risco de a integridade mas não ser do que um deleite de espcialistas, porventura interdisciplinares. Decorre daí o segundo valor da herança paterna, uma crença permanente (isto é ao longo do ciclo vital) na pedagogia, que se passa a ilustrar com quatro caixas e três citações.

 

O Ensino Liceal da História e as Exigências Universitárias esclarece a ligação entre integridade e pedagogia, através do reconhecimento da dignidade da pessoa e da preservação do património exigida para sustentar essa mesma dignidade[22].

 

(Caixa 8, 98) Deverá lembrar-se que a finalidade de todo e qualquer ensino, independentemente e para além da preparação de quadros úteis à sociedade, entendida de qualquer modo que se queira, é o de formar pessoas, isto é, promover o aproveitamento do que de melhor há em cada um e procurar dar a esse melhor as condições para vencer nas duras passagens da realização humana. No que se refere à história, os seus objectivos que são a defesa da capacidade e da razão, o esforço para uma integração da parte num todo sequente e com sentido sincrónico e diacrónico, o hábito do rigor e da responsabilidade crítica, o pensamento em termos de consequência são também caminhos por onde, inadiavelmente, tem que passar a formação integral da pessoa (p. 21).

 

O Elogio do Doutor José de Azeredo Perdigão, por ocasião do seu doutoramento honoris causa pela Faculdade de Letras realizado em Fevereiro de 1974, tem um exórdio ex abrupto, a sexta citação, que também permite relacionar os dois valores[23].

 

(Caixa 9, 113) (6) Tradição universitária e seu fundamento, ao mesmo tempo que expressão profunda de humanismo, esta certeza de que as habilitações por grau académico não moldam o homem. É este – quando superior – que nelas se exprime (p. 73).

 

História Diplomática Portuguesa representa o culminar de “didáctica universitária” iniciado em 1965 (um ano depois do doutoramento) na Faculdade de Letras de Lisboa, sendo dedicada aos quadros da Força Aérea. Aí se referem ainda as aulas na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa. Embora o 1º e único volume terminasse com o Congresso de Viena, previne: “O programa abrangia – e era cumprido – a história diplomática portuguesa até 1968” (p.XIV)[24].

 

É a pedagogia destinada “a quadros altamente qualificados e exigentes, na sua vigilância crítica” (p. XIII), reflexo afinal “daquele escol nacional que, em cada situação, se apresenta como dominante responsável pela concepção e execução da resposta” (p.X). Logo ali se limita à história anterior ao século XIX “a confiança no recurso á comunidade nacional e aos seus corpos naturais internos para propor soluções e renovar o seu escol”. O modo como D. Dinis continuou a política de seu pai é um exemplo dessa adaptabilidade antiga, escolhida para sétima citação.

 

(Caixa 10, 239) (7) A lucidez de execução, ligada à vigilância atenta dos problemas em evolução, é a verdadeira forma de distinguir um grande governante. Não, necessariamente, a originalidade. (p. 20 nota (3))

 

Também faz parte da pedagogia o fascínio de meu pai pelas bibliotecas. Em A Biblioteca Nacional e o Desafio da Cultura Portuguesa Uma Evocação Uma Razão Um Projecto narra com invulgar candor a sua meninice e evocando quer o “monumento de cultura, como lhe chamaria o conselheiro Acácio, sem prejuízo para os demais!” quer outros habitués do velho Convento de S. Francisco ao Chiado antes de voltar às considerações prévias da integridade e de concluir com a habitual nota de esperança[25]. A oitava citação contribui para aprofundar a ligação entre integridade e pedagogia, no quadro nas concepções de cultura dogmática e céptica já denunciadas nas caixas 3 e 4 acima.

 

(Caixa 11, 267) Na verdade, desde 1937 que frequento a Biblioteca Nacional, depois de ter lido o meu Rocambole do Ponson du Terrail, e os meus Miseráveis de Victor Hugo, entre o Camilo e o Júlio Verne, na Biblioteca Pública Popular de Lisboa, então instalada na Rua Ivens. Insuficiências da Biblioteca paterna. (…)

Tinha pedido a Trahison des Clercs de Julien Benda. E não sei se a sólida senhora, robusta e loura, esposa de um frágil e atento homem de cultura – o doutor Possidónio Laranjo Coelho -, acaso terá visto no título alguma insinuação anti-clerical (p.128)

Memória e vivência são as duas formas estruturais, antinómicas e complementares de manifestação da consciência. Nem na definição do eu nem na percepção do outro coincidem ou têm a mesma importância. Mas não deixam, por essa razão, de ter íntima relação entre si. A vivência do eu intensifica-se com a memória. E esta – a memória – aprofunda-se, em grande medida, pelas exigências do eu. (p 131)

(8) Contudo a memória e o melhoramento da sua selecção são também, em grande medida, uma responsabilidade social. Se é ilícito – imoral – suprimir a memória, não o é menos sujeitá-la a limitações que a tornam infecunda. É preciso sabermos ter memória! (p 132)

…se foi possível arrancar, através do prestígio da Biblioteca Nacional, às limitações do torreão militar do Terreiro do Paço e depois às dependências do segundo andar do velho convento de São Francisco, para aqui, por certo que teremos força para enveredar pelo caminho de transformar a Biblioteca não só num depósito da cultura portuguesa como num grande instrumento do seu aprofundamento e difusão.” (p. 140)

 

História Diplomática Portuguesa serve para passar da pedagogia à luta contra o pré-conceito. O mesmo se diga de “Estrangeirados”, um conceito a rever[26], título que previne contra o preconceito escondido.

 

 

3. Contra o Pré-Conceito (CPC)

 

 

Ao contrário da primeira edição, “ensaio de especialidade”, a reedição de Estrangeirados esclarece as “bases epistemológicas, uma vez que a investigação científica se faz por confrontos de posições, com vista à integração inteligível do máximo de dados concretos conhecidos” (Nota Prévia) e conclui, sem margem para dúvidas, na nona citação.

 

(Caixa 12, 134) Nem todos vêm a cultura portuguesa do mesmo modo, as críticas não coincidem, como não coincidem as soluções. Todas se tomam por superiores (por isso se diferenciaram) mas nenhuma o é. Neste contexto, há estrangeirados, quando criticam a cultura da sua terra, em função de modelos procurados fora dela e, paraserem significativos, não precisam de ter “razão”. Seja qual fora a sua validade, são característicos para conhecer as opções de cada época (…)

(9) Pode ser-se estrangeirado, ao mesmo tempo que medíocre e nunca se ter saído do país! (p. 47))

 

A denúncia do preconceito que, enquanto pré-conceito, não é perdoável às elites, é assim inseparável da pedagogia. Os Lusíadas e a História dão um exemplo pungente da devastação do preconceito, voltando in fine ao doloroso tema anunciado na “advertência preliminar” do livro[27].

 

(Caixa 13, 137) Que intenção orienta tantos investigadores portugueses acerca das suas próprias sociedades e culturas? A ânsia de as destruir, de as subalternizar? E para quê? (p. 268)…

O conhecimento dos processos de utilização dos diversos “tempos” humanos permite-nos encontrar no poema, interligadas, mas bem definidas, as três dimensões do passado, presente e futuro.

Por fim, numa breve referência, é-se levado a verificar que todos estes problemas se apresentam claros, na sua dignidade, para a crítica universal, enquanto a “apagada e vil tristeza” dos portugueses, a mesquinha mentalidade de facção, negando a própria evidência, não deixa perceber o que, no poema e no poeta, é a verdade mesma, para um Burckhardt, um Bowra, um Le Gentil, um Humboldt! Mísera sorte, estranha condição! (p. 18)

 

Além de prova viva do empenho na pedagogia, a História Diplomática Portuguesa contém numerosos exemplos, muitas vezes explicitados em notas de rodapé, da “estranha condição” lamentada na caixa 13 acerca da verdade em Camões. A caixa 14 contém excertos de cinco notas, onde se sucedem erros de facto acerca do porto de Lisboa, substantivações ambíguas como a burguesia de António Sérgio, interpretações exuberante como a lenda negra de Filipe, falsas atribuições na procura da paridade na Santa Sé e exageros de crítica na partida da corte para o Brasil. Todos apontam à sua maneira para a integridade, sem prejuízo do objectivo pedagógico do livro. Mais uma vez, a luta contra o pré-conceito se pauta pelos dois valores fundadores.

 

(Caixa 14, 239)

1.             Ao contrário do que se menciona a esse respeito, Lisboa era servida por um verdadeiro rosário de portos. (p. 21, nota (4))

2.             Interpretação de muita voga, mas sem qualquer base documental ou sequer verosimilhança histórica”; forma de ligar a “burguesia” à expedição de Ceuta. Mas: que “burguesia”? Porquê a “burguesia”? Este chavão, cronologicamente peripatético, tem sido colocado, como a nata das explicações, nos mais vvariados acontecimentos da história portuguesa. Por um simples termo, acalmam-se na verosimilhança actualista, os esforços para uma segura compreensão do fenómeno histórico mais complexo. Crítica, nenhuma. Faltam-lhe todas as condições preliminares de uma hipótese científica: base documental, prova específica da intervenção em cada momento, falta do veículo realizador de projectos. Mas que “classe” era essa que dispunha de um vedor da fazenda no “aparelho de Estado” (empregando já o calão propiciatório à injunção), sem ter tido sequer recursos para sua própria organização profissional? E vamos esquecer a situação peninsular, a cidade de Lisboa, as preocupações da Corte, para assentarmos no que até hoje ninguém conseguiu definir ou isolar operativamente: a “burguesia” portuguesa do princípio do século XV? (p. 42, nota (1))

3.            tem-se falado muito a propósito de Filipe II, da lenda negra, publicidade montada pelos flamengos…(cujos) resultados chegaram até nós, apesar de já desmontada pelos historiadores (p. 108, nota (3))

4.            o debate sobre a sua autoria (das instruções gerais remetidas a André de Melo e Castro como enviado extraordinário do rei de Portugal junto do Papa e redigidas em 1707) não tem sentido, uma vez que exprime uma linha de força de todo o reinado de D. João V (p 259, nota (4))

5.            importa salientar este ponto uma vez que, à volta dele, se estabeleceram algumas confusões que têm algum sentido, pois também aparecem nas controvérsias da época: uma coisa é a saída da autoridade real do País…Outra coisa, porém, foram as instruções de bom acolhimento que, na verdade são até incoerentes com a partida da família real…Só depois desta declaração do Rio de Janeiro é que a situação se esclareceu como sendo de guerra…O manifesto do príncipe regente veio corrigir um erro. Entre a sua publicação e o levantamento nacional mediaram três meses (p. 367, nota (9))

 

No que toca à batalha de Alcácer-Quibir o tema é objecto de secção própria (pp. 110-117), e de um texto onde considera a atitude de D. Sebastião “ – como atitude – indispensável e de altíssima dignidade”[28].

 

(Caixa 15, 132) É evidente que este facto – que mergulha profundamente na justificação política do poder no século XVI “um fraco rei faz fraca a forte gente” – nada tem a ver com a capacidade militar ou até política de D. Sebastião...

Por isso mesmo, apesar da derrota, a figura de D. Sebastião atravessou impoluta a história de Portugal (…) Uma campanha estúpida, conduzida por abstencionistas, sobretudo no século XX pretendeu destruir o significado e o alcance da sua morte dando-a como um acto impensado, insuficiente ou desnecessário….Quanto ao seu significado contemporâneo, ou na meditação que, no nosso tempo, ela pode merecer, será o de lembrar que povos vencidos não são os que travam batalhas e as perdem, mas os que fogem ao combate, sem deixarem de se entregar ao inimigo (p 8).

 

Também o tema da luta de Pombal contra os jesuítas, é objecto de secção própria (pags. 282-290), que antecipa o que viriam a ser os séculos XIX e XX.

 

(Caixa 16, 239) Através dessa “subordinação” do rei absoluto à Igreja soberana poderia, decerto, ordenar-se uma sociedade hierarquizada, sem o risco da sua transformação numa sociedade de castas e garantir a sua movimentação interna, dentro das responsabilidades típicas da sensibilidade ocidental. Mas o certo é que os projectos que começavam a fervilhar nas sociedades europeias contemplavam, cada vez menos, estas exigências cautelares expressas na Igreja, encaminhavam-se abertamente para a expressão das ideologias como forma suficiente de expressão do pensamento político. Não o eram. Mas para o saber iria levar dois séculos (p. 282).

Estabelecia-se definitivamente um longo período em que a diplomacia se basearia exclusivamente em relações de força, com a invocação de interesses exclusiva e deliberadamente políticos e sociais. Condições, sem qualquer dúvida, correntes e naturais. Mas insuficientes para exprimir e conciliar os homens na sua verdadeira natureza. Ia começar a era das ideologias (p.290)

 

A conferência de Berlim cem anos depois serve para dissipar ideias feitas e ilustrar uma hábil negociação internacional no meio da indiferença ou da crítica da opinião pública nacional. Na verdade, para Portugal, a conferência “caracterizou-se, simultaneamente, por uma advertência, e por uma viragem para novos projectos e realizações, uma vez que constitui também o fechar de um período próprio, no que diz respeito à determinação da área dominante dos seus interesses africanos”[29].

 

(Caixa 17, 211) Tal como no século XVII, o Brasil tinha fixado os interesses portugueses face às dificuldades na Índia, quando o tráfego se organizou em concorrência com a Inglaterra e a Holanda, também, no século XIX, Angola compensava largamente os portugueses, quando as dificuldades internacionais se acumularam no Congo. As viagens portuguesas realizadas, por essa altura, tinham expressamente a intenção de explorar as áreas ao Sul da margem esquerda do Congo e as bacias hidrográficas do Cuanza, do Zambeze e do Cunene. (p.7)

 

A oitava e última secção de Portugal um destino histórico[30], intitulada A Crise do Destino, continua História Diplomática Portuguesa, prosseguindo o tema da opinião pública aí várias vezes aflorado (por ex. a propósito da expulsão dos jesuítas). Muito daquela secção destina-se contudo a esclarecer o problema do atraso da industrialização na península, um tema recorrente e acerca do qual abundam os preconceitos. O esclarecimento radica o “internacionalismo para além da circunstância” na integridade do concreto nacional, irredutível ao presente como lembra a conclusão, onde voltam os três tempos. Interpretar a décima e última citação, tal como as seis caixas, exigiria uma pesquisa mais cuidada dos vários temas, alguns dos quais tratei em trabalhos que infelizmente meu pai já não pôde ler[31].

 

(Caixa 18, 301) Costa Cabral (…) não se deu conta de que tinha nascido, como força nova, uma opinião pública com meios de expressão seguros e que ia para além do que ‘diziam’ os jornais” (p.312)

Assim, sem receio de exagero, podemos dizer que, na sensibilidade portuguesa do princípio do século XX, o tema “Portugal, que destino histórico?” ia ao encontro do problema sobre se Portugal era, ou não, capaz de levar a efeito um projecto de desenvolvimento que lhe desse uma equiparação de presença nacional idónea, na cultura e na vida pública internacionais, como tinha no passado e que o seu “atraso” tinha feito perder. O país aceitou a República democrática porque a supôs capaz de levar a efeito as medidas fundamentais nesse sentido. E pela mesma razão aceitou a Ditadura Militar de 1926 e deu depois o seu longo apoio ao Estado Novo.

O 25 de Abril de 1974 teve, por detrás das suas motivações mais difundidas, uma ideologia de desenvolvimento. A viabilidade em o conseguir pelo caminho que julgava “moderno” era, desde havia muito, sabida como inexistente, logro completo que só podia interessar a quadros políticos em absoluto ignorantes do que durante mais de cinquenta anos se tinha passado com propostas daquela natureza em todos os casos, desde a URSS a Cuba. (p. 315)

As Nações são corpos complexos da globalidade exigente e variável dinamismo: antiguidade é a expressão da sua capacidade desafiada que não raro se opõe à eficácia do voto imediato, mesmo que este seja necessário para verificação de uma evolução possível (p. 316)

Os ideais são universais, as realizações não o podem ser. Só existem como nacionais ou específicas (p. 317).

(10) Nós sabemos que os valores se perdem, quando se esbate a dignidade com que são defendidos e se plastifica o contexto em que são vividos ou com que se defendem. Torna-se indispensável restaurá-los para cada contexto. Saber continuar.

Na igualdade dos valores e na diversidade da sua percepção, o nosso destino histórico é alcançar a paridade do desenvolvimento para a intensificação da nossa diferença acumulada e natural. Sempre a exploração do risco da nossa diversidade, no “à vontade” da nossa independência. E manifesta-se na paridade sempre conquistada e no seu exercício, como poder político. (p. 318)

 

 

Conclusão

 

 

Os valores da integridade e da pedagogia na luta contra o pré-conceito, complementares dos três tempos que marcaram toda a vida e obra de meu pai, serão esteio do “internacionalismo para além da circunstância”? Parece que não! O “ismo” atribuido em 22 de Outubro de 2004 não foi afinal para além dessa feliz circunstância. Mas a atribuição explica-se agora através da procura do equilíbrio entre a política nacional e o amor ao próximo, noção esta mais ampla do que o conceito de civilização.

 

Tal procura deixa entrar o particular humano do pai e do filho, ao passo que o abstracto compulsivo não permite escolher – nem saber ter memória. Os dois valores da integridade e da pedagogia melhoram a selecção da memória, verdadeira responsabilidade social, sem a lúcida execução da qual se plastifica o contexto em que são vividos, e se perdem, esses valores.

 

A permanente ameaça do pré-conceito, que, no caso de um pequeno país, é a tentação da uniformidade, leva à luta dialéctica entre o povo e as elites, obrigando estas a saber continuar. Se isto é “internacionalismo para além da circunstância” ou não, afinal pouco importa. A nova circunstância permitiu-me passar umas semanas a conversar com meu pai, e, no processo existencial da escolha, esclarecemos mais uns aspectos do que outros...

 

Até por causa desta nova circunstância feliz, quero concluir como iniciei o que disse há poucos meses na Academia Portuguesa de História, ao evocar o modo singular como a herança de meu pai chegou a quem com ele nunca conversou. Vem na dedicatória do citado Livro 7: “Nunca se conheceram mas têm ambos uma profunda influência em mim. Influencias que se complementam e se prolongam no futuro. Com os dois até ao infinito.” Creio as minhas duas noras, que vivem nas duas costas dos Estados Unidos, tão certas como seus maridos da presença espiritual do avô.

 

No mesmo espírito, dedico estas linhas à minha filha, que vive em Paris a dois passos do Hotel Gay-Lussac, onde o avô, há mais de quarenta anos, escorou a tese de doutoramento: passado, presente e futuro.



[1] Professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, Presidente do IICT. Este escrito, a ser apresentado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 12 de Abril de 2005, foi concluído a 4 de Abril (Ascensão) em Paris, onde beneficiei da hospitalidade do Institut d’ Études Politiques. Comentários a versões anteriores (a primeira distribuída à família no Domingo de Páscoa) permitiram melhorar o texto, sendo insuficiências remanescentes da minha responsabilidade.

[2] Devíamos ainda escolher uma fotografia do instituidor, na qual parecesse à vontade, de preferência sem gravata. Como o Catálogo foi patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, cumpre-me agradecer ao Prof. Diogo Lucena, meu colega na Faculdade de Economia, e ao Prof. Luís Magalhães a generosidade com que apoiaram o início do longo processo, descrito no Prefácio da Profª Maria do Rosário. A palestra na Academia da Marinha, proferida por Amaral Xavier, versava um tema estimulado por O carácter europeu dos descobrimentos e o sigilo nacional na sua realização, 1994, rubrica 8500 do Catálogo.

[3] Estas últimas informações de natureza pessoal, bem como outras, vêm especificadas na nota (38) da pag. 43 do Elogio. O afastamento a seguir ao 25 de Abril (p. 39), seguiu-se à morte da mãe, em 12 de Novembro de 1973. À morte do pai, em 31 de Julho de 1948, seguiu-se em 1950 a prisão “por ter transportado um pacote de propagando do Movimento Nacional Democrático, uma estrutura de oposição de duração efémera” segundo se refere numa entrevista conduzida por José Freire Antunes, publicada no Semanário de 1 de Outubro de 1994 com o título O Brilho do “Velho Sábio”. Ocorre revelar que o epíteto carinhoso se deve ao Dr. Francisco Mantero. Ver notas (6) e (9).

[4] P. 18, nota (2). É a rubrica 257 na bibliografia constante do Itinerário citado no texto, publicado pelas Edições Colibri em 1991. As citações em caixa referem estas mesmas rubricas visto que, como o Catálogo reconhece, a edição completa da obra exige o exame do Espólio que pertence aos legatários (p. XVI). No caso de se tratar de obras não constantes do Itinerário, inclui-se a rubrica do Catálogo, como aconteceu na referência da nota (2). A lista de monografias e publicações periódicas constante do Elogio, além de mais actual, inclui apontamento de Teoria da História, incluindo aulas práticas, de 1955 e 1966. Contudo não inclui a secção de congressos, reuniões científicas e sessões culturais. Entendi não referir no texto aqueles excertos que já usei nos meus próprios trabalhos, como as rubricas 89 (tese de doutoramento 1963), 141 (Uma perspectiva histórica para a integração europeia, 1979), 148 (Portugal ano 2000, 1980), 151 (Constantes da História de Portugal, 1981), etc. Ver abaixo nota (15).

[5] Citado como rubrica 239, este livro engloba doze separatas de Nação e Defesa, as rubricas 121, 129, 136, 145, 152, 153, 154, 165, 166, 182, 212 e 213. É salientada no Elogio, p. 40 como “resposta positiva aos desafios para novas áreas de ensino”, o que corresponde à localização principal, na secção 2 do texto.

[6] Jorge de la Barre escreveu, na École des Hautes Études en Sciences Sociales, Identités multiples en Europe? Le cas des lusodescendants en France, orientado por Dominique Schnapper, filha de Raymond Aron, que meu pai tanto admirava (ver rubrica 143 e 288, onde se escandaliza com o facto de a morte de Aron não ter sido noticiada na televisão, caso único na Europa); dedicou o seu Jeunes d’origine portugaise en association: on est Européen sans le savoir, Paris: L’ Harmattan, 1997 « à la mémoire de mon grand-père Jorge, Sagesse généreuse »; pouco antes do doutoramento casou com Fumiko Miyamoto. O 2º e 3º netos, António Maria Braga de Macedo Castro Henriques e João Estêvão Almeida Ribeiro Braga de Macedo, vêm mencionados no Catálogo, com o 4º (Jorge Maria), o 5º (Francisco) e a 7ª (Teresa), por terem colaborado “na ordenação e na distribuição das espécies bibliográficas” (p.XIV), na qual também participou Joana Laranjinha, então noiva de João. Tal como o primeiro, a 6ª neta (Ana) residia na altura em Paris. Mais informação pessoal citada no Elogio, como referido na nota (3) acima. A 3 de Março de 2005 comemorámos com os mais próximos aquele que teria sido o 84º aniversário de meu pai, vimos o esperado Catálogo e encontramos a fotografia. Não obstante a gravata, o Prof. João Medina gostou do retrato e, em 7 de Março, reunidos ambos no Centro de História com a Profª Maria do Rosário, decidimos mantê-lo para as comemorações anunciadas no texto. Datei a fotografia com base na existência do telefone, que aparece na lista nº 76 (p. 557), em vigor a partir de Janeiro de 1955, como tendo sido instalado depois da conclusão da mesma. A lista nº 75 deu entrada na Biblioteca Nacional em 24 de Novembro de 1953 e a nº 77 (onde vem a pags. 299) deu entrada a 5 de Abril de 1956. Inclino-me pois para a idade de 33 anos e não para a de 27 anos, atribuída pela viúva Gisele na comemoração referida acima, com base no lhe dissera meu pai. A fotografia está na sala ao lado da que ilustra o Itinerário, recordação subliminar das quatro décadas de constância na mudança que unem os dois retratos - como estas comemorações continuam as então realizadas. A fotografia é assim posterior à publicação da tese de licenciatura (rubrica 58), de que me chegou uma cópia oferecida a minha mãe com a dedicatória “Para Branca, no amor e ventura, este livro que é teu e nosso. Do teu Jorge”. Também é dessa época a prisão - durante um mês e um dia assegura-me a viúva embora a entrevista citada na nota (3) refira 40 dias, dois quais 15 em isolamento -. Os arquivos da PIDE (consultados por seu irmão mais novo, Fernando, recém falecido em Zurique onde viveu quase quarenta anos), sugeria-se a denúncia por um militante do PCP. Na segunda edição de A situação económica no tempo de Pombal, oferecida em 27 de Outubro de 1982 “com toda a ternura, com a amizade e a esperança de sempre”, descreve no prefácio a “atitude filosófica implícita no livro” como “essencialmente hegeliana, porquanto parte do princípio que há um processo dialéctico na definição das situações.” (p.13). Admite o interesse dos textos do jovem Marx, salientados na altura (1944) por “marxistas, já heterodoxos” (ibid.) Estes trechos são citados no Elogio, passim.

[7] Tal como menciona o Catálogo, em 24 de Junho de 1996 assinei em nome dos herdeiros um documento escrito em Fevereiro contendo as condições do Legado e da custódia do Espólio. A mesa redonda está prevista para 22 de Junho de 2005. Para nela participar, sondei o Prof. Joaquim Veríssimo Serrão, que escreveu o “Perfil de um Grande Mestre” no Itinerário, e o Prof. João Marques de Almeida, actual director do IDN. O primeiro não fechou a porta, o segundo estará presente, até pela razão invocada no texto de promover o lançamento da 2ª edição de História Diplomática Portuguesa.

[8] Ocorreu-me na quinta-feira santa, entre as Praias da Tabueira e da Aguda , uma abreviatura do título que recorre à matemática que o meu pai tanto apreciava: PPCPC. Sem o hífen (que julgo Althusseriano, embora o Dr. José Brissos me tenha convencido que radica em Hans-Georg Gadamere), a fórmula realça a sigla de um partido político que meu pai bem conhecia, ver nota (6 in fine), rubrica 250 (carta resposta ao director do Semanário) e entrevista citada na nota (3). Para além do relato da passagem pelo Aljube, que levou ao seu afastamento da Escola Lusitânia, seguindo-se uma passagem de 6 anos no Colégio Moderno, a entrevista revela o apoio de Baltasar Rebelo de Sousa ao seu provimento como assistente na Faculdade de Letras.

[9] Na entrevista citada na nota (3) acima salienta “a valorização do amor ao próximo” (ver abaixo no texto) e cita Camões “o rei fraco faz fraca a forte gente” (ver contexto na nota (28) abaixo), síntese da má governação que se pode relacionar, assim o creio, com o “bem acessível” explicado na nota (20) abaixo. Julgo ver aí a chave do equilíbrio referido na introdução acerca do “internacionalismo” entre a política nacional, ambito por excelencia da boa governação, e o amor ao próximo “para além da civilização”, como se vê na citação (4).

[10] Menciona-se a preparação do CD-Rom, na qual o IICT irá colaborar. O existente já está a ser validado pelo Dr. Pina Manique, antigo aluno da Profª Maria do Rosário, em circunstâncias que me permitiram descobrir uma amiga na discípula dilecta de meu pai. O Catálogo explica ainda a “coerência da memória” pelos alunos em termos que definem melhor este valor da integridade: “Na personalidade de Jorge Borges de Macedo aliavam-se duas características que raramente andam a par, o sentimento vivencial e o pensamento estrutural, e essa aliança levava ao esgotamento lancinante, tanta era a insistência na presença e tamanha a urgência em compreender racionalmente”. E continua: “Perfeito conhecedor das clivagens ideológicas da sua geração, a ponderação dos acontecimentos era feita com a segurança interior da leitura e com a confiança na possibilidade de ultrapassar todas as circunstâncias. Uma excepção na variedade possível: de toda a impostura era opositor implacável. Assim também toda a autenticidade que acreditava reconhecer lhe merecia atenção” (p. XV).

[11] Separata de Resistência - revista de cultura e crítica enviada em Outubro de 1978, “as saudades e a companhia”. No prefácio à segunda edição de O Bloqueio Continental, oferecido em 8 de Junho de 1990 “em paz e esperança, amor sempre”, insere o livro, cuja primeira edição é de 1962, “na defesa da história global, renovada pelo enriquecimento dos novos recursos para a reconstituição problemática das situações que a nova história procura atingir.” (p.10) Surge aí “integridade” referida à comunidade científica portuguesa, que a não soube preservar: “ As únicas convergências institucionais que se mantiveram, com maior ou menor sucesso, foram as academias”. (p.11)

[12] Separata de ICALP, Revista do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa de 4 de Março de 1986, oferecida em 28 de Outubro de 1986 “esta lembrança do intemporal temporal”.

[13] Ofereceu-me uma separata ad usum amicorum assinada mas sem paginação: “esta meditação intemporal, com a alizade também intemporal”.

[14] Na separata, oferecida em Março de 1990, chamou-lhe “meditação tranquila”. A primeira citação do Elogio (p. 17-18) é deste trabalho a apoiar a crença de meu pai “na capacidade da razão humana como forma de entendimento e de construção do mundo, abrindo-se, ao longo da vida e cada vez mais ao insondável do mistério, do sofrimento e da graça.”

[15] Evoquei-a nomeadamente na minha contribuição para os Estudos em Homenagem a Jorge Borges de Macedo, Lisboa: 1992 pp.613-622 e numa contribuição publicado em Edmond Malinvaud e Louis Sabourin, Globalization: Ethical and Institutional Concerns, Vaticano: 2001, pp. 223-267.

[16] Alberto Sampaio no pensamento histórico português, dedicado à memória de Torquato de Sousa Soares, este texto baseia-se numa conferência proferida em 17 de Novembro de 1991 na sessão de encerramento do Congresso Histórico Comemorativo dos 150 anos do Nascimento de Alberto Sampaio e citada no Itinerário (p. 60), cujas Actas só viriam a ser publicadas em Guimarães em 1995 (a rubrica no catálogo é 8492). A citação vem na p. 440. A rubrica 125 foi publicada em 1977 no volume de homenagem ao mestre de Coimbra, que meu pai um dia me descreveu como “viúvo inconsolável”. 

[17] Na separata oferecida em Bruxelas a 25 de Fevereiro de 1990, chamou-lhe “meditação, trazendo Pessoa à sua (dele) dimensão”.

[18] Dedicado a Manuel Eugénio Machado Macedo, oferecido “ao Jorge e à Luísa por enquanto longe da Pátria, esta meditação simples sobre o que podemos e o que não pudemos”, datado de 27 de Março de 1991

[19] Trata-se de uma conferência ao Rotary Clube de Coimbra, proferida no Palace Hotel da Curia em 12 de Novembro de 1994, publicada em Portugal no Mundo, cuja separata de não tem dedicatória. Rubrica 8564. Outro dos últimos trabalhos trata de Manuel Fernandes Tomás e apareceu nos Estudos em Homenagem a Joaquim Veríssimo Serrão, 1995 (rubrica 8552). Numa publicação de 1996, a última que consta da bibliografia anexa ao Elogio, e a única de que me mostrou provas pedindo-me para acautelar o inglês, liga o geral ao particular através do que chama “The Portuguese model of State Exportation”: refere-se a uma conferência sobre o estado pré-industrial realizada em 1992 na Torre do Tombo e tem a rubrica 3743 no Catálogo.

[20] Vejo no qualificativo um elemento inovador relativamente à expressão “bem comum” referida abaixo na nota (31), explicitado, segundo penso, na caixa seguinte no texto, referente ao choque das civilizações.

[21] Embora considere que “a tentativa teórica” de Huntington marca um “grande avanço” relativamente ao que dizia Fukuyama em O fim da história. Ao falar no texto de “associações de malfeitores que têm a mesma civilização”, parece não só antecipar o 11 de Setembro de 2001 mas sobretudo recusar a interpretação do terrorismo com reflectindo o choque de civilizações.

[22] Publicado em 1970, e dedicado “com os melhores votos para as suas razões que a razão não conhece”. Quando em 29 de Setembro de 1998 se trasladou a urna de meu pai do Cemitério dos Prazeres, onde seus pais jazem na sepultura perpétua n.º 884 (secção 32, rua 1, lado DF), onde se descreve o meu avô como professor de economia política e colonização), para uma campa no Alto de São João, sugeri à viúva um epitáfio simples, Historiador e Pedagogo. Sugestão que, antiga professora, Gisele facilmente aceitou. Que alegria ao ver agora uma entrevista de Março de 1952 a Gente Moça Jornal dos Alunos do Colégio Moderno “A convivência com os alunos é o que maior prazer me dá no exercício da minha profissão” (a primeira registada no Itinerário, p. 61). O Catálogo faz-se eco dessa evidência entre as pp. XVIII e XX. “Como pedagogo e seguindo os passos trilhados por seu pai o Doutor José de Macedo demonstrava uma concepção cívica da educação e na tradição cultural assumida pelas grandes civilizações erguia bem alto a concepção do papel do professor…Entendia Portugal na sua singular universalidade e, ao mesmo tempo, como resultado e agente na formação do património europeu.” Acrescente-se que meu pai ensaiou uma biografia de seu pai no prefácio à 2ª edição de Autonomia de Angola, publicada pelo IICT em 1988 (rubrica 263), citada na nota (4), p. 20 do Elogio. O Prefácio continua: “Europa que, ao encontro dos novos mundos, manteve as suas condições: a Respublica Christiana de Thomas Morus como modelo, a par da vida das pequenas potências ao lado de grandes potentados”. A despeito da citação da nota (4) acima, não se aprofunda o tema.

[23] A certeza é esclarecida a seguir: “Qualquer que seja o alcance das vocações sobretudo morais e de responsabilidade e muito menos de escolha profissional que, hoje, tem uma definição muito dispersa”. E tem o fito de revelar no homenageado o talento para as letras e para a história, afinal a sua integridade. Elogio p.48 ao salientar a obra radica o elogio em “ter sabido conduzir uma política cultural frutuosa, responsável, aberta e ao mesmo tempo vigilante”.

[24] A publicação foi oferecida no Natal de 1987 “Ao Jorge e à Luisa com toda a amizade e os melhores votos”. Note-se que a secção de congressos, reuniões científicas e sessões culturais do Itinerário, aparecem entre 1980 e 1990 as dez conferências no Curso Superior Naval de Guerra. Também marcaram muitos economistas as suas aulas de História do Pensamento Económico no ISCEF, embora estas estejam apenas citadas a pags. 26, para o ano lectivo 1965/66. Elogio, p. 35 indica que a acção decorreu até 1972.

[25] Casado com uma bibliotecária vai para 33 anos, evoco com gosto um texto que meu pai dedicou “à Luisa como lembrança actual da antiguidade”.

[26] Dedicada à memória de Fidelino de Figueiredo, oferecida em Outubro de 1978, como “segunda via”. O trabalho original, de 1973, tem a rubrica 114.

[27] Livro enviado em Fevereiro de 1980 (para Princeton, NJ onde acabávamos de chegar vindos de New Haven, CT) com a menção “distante e sempre presente, lembrança do pai”

[28] Texto dedicado a Mário de Albuquerque na Resistência - revista de cultura e crítica cuja separata envia em Dezembro de 1978 “com muitas saudades”. Aí Elogio p. 41 cita a versão publicada no Estado de S. Paulo, que é a rubrica 131. No texto nota-se que a citação de Camões “um fraco rei faz fraca a forte gente” (incluída na caixa) se refere a D. Fernando. Acrescenta: “Este conceito…é, se nos lembramos dos ‘reis que não fazem a guerra’, um elemento essencial para exprimir a crítica à realeza portuguesa do século XVI, mera administração, modo que não é partilhado por Camões, nem o que D. Sebastião pretendia aplicar….A empresa de África é um acontecimento, não é a ‘essência’ do reinado de D. Sebastião, nem a sua finalidade.”

[29] O texto continua: “Motivos mais do que suficientes para que a lembremos neste seminário de Tomar , que, na expressiva designação de Pensar África se ocupa dos problemas actuais das relações de Portugal com os novos Estados africanos de expressão portuguesa.” Contudo, Itinerário, p.37 refere um seminário em 26 de Outubro 1984 em Tomar sobre Pensar a cooperação. A separata da Revista Democracia e Liberdade nº 35, de Outubro/Novembro/Dezembro de 1985 vem dedicada “com um abraço e os melhores votos” em 30 de Agosto de 1986.

[30] É uma publicação da Academia Portuguesa de Histórica (“dedicada a Joaquim Veríssimo Serrão a quem a colaboração cultural luso-espanhola tanto deve”), a única de que recebi três exemplares, os dois primeiros oferecidos a 16 de Dezembro de 1991, data da lição de homenagem do Prof. Joaquim Veríssimo Serrão reproduzida no Itinerário, um mencionando “um destino para outro destino” e outro referindo “esta primeira versão de um destino a continuar” acrescentando “para a Luísa do seu também do coração Tio” e para ambos “com todos os votos de felicidade e boa consciência”. O terceiro vem com um cartão datado de 25 de Maio de 1992 dizendo “Aqui vai o suplício de que só precisas torturar-te com as páginas finais. Não para o padre nosso…”Elogio, p. 49 chama-lhe “uma das suas comunicações mais emblemáticas, símbolo de toda a sua obra e da própria missão pessoal que reconheceu como destino”

[31] Em 1995, meu pai ainda participou em doze conferências, uma a 10 de Fevereiro no IDN, ainda inédita, outra na RTP em Abril sobre os Três Ds, outra ainda, a última, em 12 de Outubro, na evocação do Embaixador Franco Nogueira no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Agradeço ao Dr. José Brissos ter-me facultado estes elementos, que não constam do Elogio, conforme se referiu na nota (4) acima. Ainda conseguimos debater uma tentativa de explicação dos últimos duzentos anos da nossa história em termos da combinação entre liberdades e pertenças, que publiquei em homenagens ao Profs. Manuel Jacinto Nunes, Pedro Soares Martínez e João Lumbrales, os dois primeiros consócios na Academia das Ciências de Lisboa. Tais tentativas deram ainda lugar a um livro em coautoria cujo título me sugeriu antes de morrer: Bem Comum dos Portugueses. No IICT tenho tentado alargar a investigação a outros países lusófonos e espero que a lusofonia como bem comum possa ser debatida no congresso do 10º aniversário da morte de meu pai!