A mudança do regime cambial português:

Um balanço 15 anos depois de Maastricht[1]

Jorge Braga de Macedo

FEUNL e IICT

Sumário

A estabilidade e convertibilidade cambiais sinalizam o regime económico aos mercados financeiros internacionais e escoram a liberdade financeira dos cidadãos. Em Portugal, os choques internos e externos dos anos 70 obrigaram a um ajustamento prolongado, no qual a vertente monetária foi feita por pressão externa, nomeadamente europeia. Porém, não bastam tratados nem pactos com restrições às despesas e receitas públicas para mudar a constituição fiscal, que reflecte o sistema político e o processo orçamental. A falta de complementaridade entre políticas explica que as nossas reformas não tenham durado o suficiente para que as empresas, os consumidores ou os contribuintes se sintam parte interessada. O resultado da “boleia de juros” que a mudança de regime proporcionou foi uma procura excessiva de bens e serviços transaccionáveis por parte dos residentes, que se manifestou sobretudo em importados e exportáveis, explicando a baixa classificação de Portugal em termos de produtividade e também em termos de atractividade para o investor. O balanço de 15 anos confirma que não se pode restaurar a diferencialidade portuguesa sem competitividade exportadora na economia global.

 

1. Introdução

O escudo entrou no mecanismo cambial do Sistema Monetário Europeu menos de dois meses depois da assinatura do Tratado da União Europeia pelos Ministros dos Negócios Estrangeiros e das Finanças das Comunidades Europeias. No Conselho Europeu de Maastricht havia participado, pela primeira vez, a formação economia e finanças (ECOFIN) do Conselho de Ministros – à qual coubera negociar a união económica e monetária. É que o prazo de 1999 para fixar irreversivelmente as taxas de câmbio era visto como a pedra angular da “união cada vez mais próxima entre os povos” que o Tratado desejava construir[2].

A decisão de Abril configurou uma mudança de regime para a estabilidade e convertibilidade, embora só em Agosto o Banco de Portugal tenha anunciado o fim dos controles cambiais, concretizado em Dezembro com a restauração da convertibilidade plena do escudo.

A própria moeda única (um cabaz dito ECU) só teve nome definido no fim de 1995. Foi o novo regime que permitiu ao escudo ligar-se com outras dez divisas do mecanismo cambial em Maio de 1998. Em 1 de Janeiro de 1999, prazo previsto no Tratado, nasceu o eurosistema. Um ano depois, aderia a dracma grega, e, numa operação logística sem precedentes, o euro passou a circular nos doze países em 1 de Janeiro de 2002.

Durante os anos que o escudo passou no mecanismo cambial, o sistema financeiro nacional modernizou-se e abriu-se ao mercado europeu e internacional. Porém, a despeito do protocolo sobre défices excessivos anexo ao Tratado (e do Pacto de Estabilidade e Crescimento que o reforçou a partir de 1997), o processo orçamental português é único na União Europeia ainda considerado “fragmentado” pelo FMI. Só agora parece receber atenção no Ministério das Finanças e na Assembleia da República[3].

Em consequência da despesa excessiva, atiçada por aumentos desproporcionados dos custos salariais por unidade produzida, a única reforma estrutural de 1995-2005 não chegou para sustentar a convergência[4].

O regime cambial interage poderosamente como o processo orçamental na determinação do equilíbrio de curto prazo da economia nacional. Consoante a natureza do ajustamento macroeconómico, este equilíbrio facilita ou impede a respectiva competitividade - logo o vigor do crescimento a longo prazo.

Por causa daquela interacção, o regime cambial é um dos pilares da política económica global. A expressão “mudança de regime” visa precisamente salientar que se alterou um aspecto determinante da governação nacional.

No novo regime, a decisão de alterar a taxa de câmbio do escudo passava a depender dos outros participantes no mecanismo cambial. Os mercados financeiros internacionais estavam atentos a todas as divisas, na esperança de encontrar elos mais fracos que lhes permitissem forçar um realinhamento da grelha de paridades. Só que certas dimensões do regime económico mudam mais facilmente do que outras[5].

A estabilidade da taxa de câmbio nominal não impediu que se observasse uma intensa apreciação da taxa de câmbio real relativamente à média do eurosistema: o aumento dos salários e a estagnação da produtividade do trabalho levaram os custos portugueses a exceder os restantes em mais de 13% entre 2001 e 2007[6].

Assim se explica que a produtividade total dos factores – capital físico, humano e social – continue muito mais baixa em Portugal do que nos países de referência. A diferença ainda é mais marcada no que toca à produtividade industrial, que é o sector chave para um crescimento sustentado no dinamismo das exportações e do investimento[7].

Divido o argumento em 7 secções, incluindo introdução e conclusão. Combino avaliações pessoais e comparações analíticas. Enquadro a governação nacional no contexto da globalização na secção 2 e descrevo a cultura cívica portuguesa na secção 3. As características políticas e institucionais que explicam a falta de complementaridade são enunciadas nas secções 4 e 5. A secção 6 descreve passo a passo a mudança de regime desde o seu início em 1989, analisa os seus efeitos e caracteriza os nove inquilinos do Terreiro do Paço. Usando o benefício da evolução subsequente, concluo este balanço dizendo que a governação nacional e europeia prejudicou a complementaridade entre políticas.

 

2. Governação europeia e globalização

A questão da relação entre Europa e África na política externa portuguesa é muitas vezes divorciada quer da integração europeia quer da política económica, mesmo quando se reconhece a importância das preferências comerciais para os países africanos de língua oficial portuguesa. Ora este ponto é importante para a população, muito mais do que os especialistas julgam, porquanto a cultura cívica portuguesa junta a pertença europeia à lusófona. Esta última inclui, além de África e Timor, o Brasil, economia emergente posta a par da Rússia, Índia e China em projecções já famosas[8]. A obsessão nacional de estar na periferia europeia interage perversamente com uma falsa oposição entre duas pertenças.

Por isso, para Portugal, não é tanto Europa vs. África mas Europa vs. Atlântico vs. Mundo que ajuda a perceber a experiência portuguesa de liberalização ambígua que precedeu o mercado único[9]. A liberalização comercial começou nos anos sessenta quando a EFTA, destino preferencial das nossas exportações, coexistia com o espaço económico português, afinal sobretudo político, e com as Comunidades Europeias, destino preferencial dos emigrantes. Sem querer insistir nestas coexistências (reveladoras da “diferencialidade portuguesa”), creio que a nossa política europeia não deve ignorar a lusofonia[10].

De novo, a nossa produtividade industrial é das mais baixas da União Europeia, sobretudo porque não é eficiente a combinação do capital físico, humano e social. No quadro 1, a classificação mais baixa refere-se não só à produtividade propriamente dita (Prod) como à atractividade para o investor (Invest). Esta equivale a eliminar a diferença em capital físico relativamente aos países de referência - admitindo que, graças à convertibilidade cambial, esta diferença pode ser preenchida pelo próprio investidor. Ao contrário, concentrar-se na integração comercial e nas infra-estruturas (admitindo que o investor pode ainda controlar o capital humano e a eficiência produtiva residual) leva Portugal para o 15º lugar. Mais. O critério Expor transforma-nos em “país de alto potencial” com doze outros países indicados numa amostra de 51, logo a seguir à Bélgica e Espanha, muito melhor colocadas do que Portugal de acordo com os critérios Prod e Invest. A localização é assim uma vantagem que Portugal não tem conseguido explorar. Perante estes dados, a obsessão com a periferia deve radicar na cultura cívica, abordada na secção seguinte.

Quadro 1 Países de alto potencial classificados pelo lugar enquanto exportador

País

Expor

Invest

Prod

País

Expor

Invest

Prod

Bélgica

4

12

6

Marrocos

30

42

43

Espanha

7

17

17

Egipto

32

49

47

Portugal

15

30

30

Fiji

33

43

44

Hungria

17

40

45

Honduras

34

45

49

África do Sul

20

31

31

Jordão

38

27

40

Malásia

23

32

32

India

40

51

50

Costa Rica

25

39

46

 

Fonte: Causa e Cohen (2006)

Sem alterar os preços relativos, não é possível ganhar competitividade a partir do ponto em que estamos sem aguentar mais dez anos de desemprego crescente. Daí haver quem nos ponha ao lado da Itália como país que não consegue aguentar-se dentro eurosistema[11].

Uma das impressões pessoais que queria partilhar vem precisamente do fim das negociações da conferência intergovernamental que criou a União Europeia em Maastricht. O Sr. Trichet, que actualmente dirige o Banco Central Europeu era na altura director do Tesouro francês e um europeísta convicto e entusiasta. Quando se chegou ao capítulo do sistema monetário internacional, a presidência holandesa do Sr. Kok queria falar do desenho internacional que mais convinha à União, e da relação da futura moeda única com o dólar, ele recusou dizendo que esses temas eram para o G7 decidir. Trichet é menos banqueiro central alemão do que o seu predecessor, tendo servido a França e a Europa em várias capacidades, mas esta imagem dá um registo diferente, mais próximo do “directório europeu”.

Em parte por causa da proximidade entre os grandes países que fazem parte do G7 (G8 com a Rússia, que presidiu em 2006), os quatro europeus usam “dois pesos e duas medidas” relativamente aos que são representados pelo Presidente da Comissão. O problema persiste assim no debate sobre a arquitectura internacional - onde a Europa não tem tido voz. Para além da reforma do sistema, tal duplicidade afecta a efectividade da vigilância multilateral europeia dos quatro grandes, como também se viu recentemente no que toca ao cumprimento do Pacto de Estabilidade. Mas, no Tratado de Maastricht, a maior preocupação era relativa aos países com dificuldades nos pagamentos externos que precisavam do apoio financeiro da Comissão. Neste último caso, tratava-se da divisão de tarefas com o Fundo Monetário Internacional, cuja vigilância multilateral era reconhecida mas na qual a chamada pressão dos pares era mais ténue do que na União Europeia ou na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico. Esta recordação pretende confirmar que a política económica externa portuguesa deve equilibrar a pertença europeia e lusófona num contexto global.

Com este enquadramento, será mais fácil entender a novidade da governação europeia na véspera da primeira presidência portuguesa, entre Janeiro e Junho de 1992, durante a qual a Dinamarca votou “não” a Maastricht, o que atrasou de nove meses a entrada em vigor do Tratado.

No meu caso, a novidade vinha mais da governação nacional, porque, quando fui eleito deputado nas eleições legislativas de 1991, trabalhava desde 1988 na direcção-geral de economia e finanças (DG ECFIN) da Comissão Europeia. Nomeado Ministro das Finanças em fins de Outubro, apresentei logo em Conselho de Ministros o primeiro dos nossos programas de convergência (dito Q2), predecessores dos programas previstos no Pacto de Estabilidade[12]. Foi discutido em Bruxelas em Dezembro, enquanto se aprovava em Lisboa o programa de governo mas, devido à recessão subsequente, teve de ser revisto, tendo sido aprovado pelo Comité Monetário em 30 de Novembro de 1993, pouco depois da entrada em vigor do Tratado, no dia 1 do mesmo mês[13]. Como entendi não assistir ao ECOFIN preparatório do Conselho Europeu de Bruxelas, este foi o meu último acto no governo[14]. Aos dois Programas seguiram-se um conjunto de documentos destinados a assegurar o cumprimento do Tratado e do Pacto, sem curar do processo orçamental até ao Programa entregue em Dezembro de 2006 para vigorar até 2010[15].

Porventura demasiado confiante nas políticas estruturais e financeiras embutidas no Q2 e nos Orçamentos do Estado de investimento, harmonização, reestruturação e recuperação que defendi na Assembleia, esperei estabilizar as expectativas e baixar as taxas de juro chamando a atenção para a importância do regime cambial na baixa da inflação e para a vigilância multilateral dos processos orçamentais nacionais.

Eu tinha consciência de que o escudo havia sido uma divisa solitária ao longo dos seus oitenta anos de existência. Mais, o hábito da convertibilidade cambial fazia parte das relíquias do antigo regime, isto é do regime anterior à declaração de convertibilidade do real em 1797, e a própria estabilidade do escudo inconvertível durante as cinco décadas que precederam a desvalorização de 1977 havia sido esquecida pela turbulência revolucionária.

Ora, apesar de representar uma dimensão aparentemente remota da governação, a mudança do regime cambial era necessária para sustentar o processo de convergência dos níveis de vida dos portugueses com a média europeia. Falar de mudança de regime visava dar uma âncora às expectativas dos agentes económicos, convencendo-os de que as suas poupanças iriam deixar de ser tributadas pela inflação: “poupança e paciência para a convergência” como dizia na altura.

Quinze anos depois, parece evidente que a mudança do regime cambial, necessária para entrar no euro, não foi suficiente para sustentar um processo de convergência nominal que exigia mais capital humano e moderação salarial para não perder competitividade. E tornou-se dolorosamente próximo da experiência vivida de cada um de nós que, nos últimos cinco anos, a convergência deu lugar à divergência real.

Evocar hoje aquela mudança de regime implica antes de mais reiterar que passar dois anos sem realinhamento era uma condição para entrar no eurosistema prévia à verificação dos dados monetários e orçamentais de 1997. A continuidade da preocupação com a estabilidade foi tanto mais notável quanto é certo que a orientação do governo havia mudado em Outubro de 1995. Mau grado essa continuidade, a sequência das duas entradas também suscita a convicção de que, entre 1995 e 2005, não se registaram as reformas estruturais complementares de uma mudança gradual do regime económico iniciada com a revisão da Constituição Política de modo a revogar a proibição de privatizar em vigor desde 1976.

Talvez por os sucessivos governos não terem dado atenção suficiente às implicações do novo regime cambial, a opinião pública não atendeu aos precedentes históricos nacionais e internacionais, nem cuidou de outros exemplos, dentro e fora da Europa, nos quais a estabilidade e convertibilidades cambiais são dissipadas pela má qualidade institucional e pela ausência de reformas complementares.

 

3. Cultura cívica

Enquadrada a governação nacional e esclarecida a circunstância deste testemunho, há que analisar a cultura cívica, assente nas pertenças múltiplas dos cidadãos, as quais interagem com as respectivas liberdades política e financeira em termos específicos. A história monetária e orçamental anterior à declaração de inconvertibilidade em fins do século XVIII revela maior preocupação com a reputação financeira da Coroa, medida pelo número de falências e de quebras de moeda, do que a espanhola e francesa. Infelizmente, a experiência subsequente desprezou a liberdade financeira, não raro considerada como inimiga da liberdade política. Tal como as invasões napoleónicas magnificaram o efeito da inconvertibilidade cambial, o desprezo pela reputação financeira da Coroa aumentou com a crise de 1890 e as suas conotações ultramarinas. Também a cultura económica dominante após as revoluções de 1910 e de 1974 levou a tensão entre liberdade política e financeira a níveis anómalos na Europa ocidental[16].

Porque despreza as consequências futuras das despesas públicas presentes, a democracia representativa gera uma tendência para o défice orçamental excessivo. Porém, na maior parte dos países desenvolvidos, impera a moderação salarial e procedimentos orçamentais apropriados orçamental travam a tendência para o laxismo. O regime cambial reforça o travão orçamental, mas não consegue substitui-lo eficazmente.

O Parlamento instaurado em 1821 tinha menos legitimidade fiscal do que as Cortes do antigo regime, até por causa das revoluções e guerras civis que marcaram a época. Tivemos democracia com hiper inflação e descontrolo orçamental antes e depois de ditaduras com estabilidade de preços e rigor orçamental. Na cultura cívica, arreigou-se a convicção de que rigor e estabilidade são atributos de ditadura política, explícita ou implícita. Claro que o voto maioritário não pode garantir os direitos e liberdades dos que não votam por não terem ainda nascido. Resulta daí o argumento fundamental para a liberdade financeira como garante das liberdades futuras. A relação com o rigor orçamental passa então por uma constituição fiscal que garanta a liberdade financeira.

Como a liberdade financeira envolve políticas futuras, a constituição fiscal não pode cingir-se ao enunciado de direitos abstractos, deve abarcar a generalidade das relações entre cada cidadão concreto e o Estado, no que toca quer à receita quer à despesa públicas. Sem essa credibilidade concreta, os mercados financeiros desconfiam das políticas futuras. Então a própria constituição fiscal, em que assenta o processo orçamental, não será credível e a ameaça à liberdade financeira pode contaminar a democracia. A liberdade financeira não é um luxo de país rico, antes uma oportunidade de desenvolvimento sustentável.

Em Portugal, certamente a tensão entre liberdade política e financeira tem a ver com o fraco envolvimento do que se chamavam as forças vivas. Não se trata apenas de empresas e associações empresariais, mas também da universidade, da parte da sociedade que pretende pensar a identidade nacional e o seu futuro a partir das pertenças dos cidadãos concretos.

Quando a parte da sociedade que pensa o futuro nacional – e a que se pode chamar elite - não se sente interpelada por este tipo de questões, deixa que os mitos mais arreigados circulem sem oposição e as forças vivas enfraquecem e podem mesmo morrer. Esta aparente indiferença da elite e este enfraquecimento das forças vivas tem-se verificado em Portugal, por isso persiste a tensão entre liberdade política e financeira, volvida uma década de estabilidade e convertibilidade cambiais.

Há pouco mais de dois anos houve um debate a nível do governo de coligação sobre esta questão quando se tratava de decidir se o ajustamento orçamental iniciado em 2002 tinha acabado ou não. E ainda hoje se ouvem, dentro de um governo de maioria, declarações contraditórias acerca da “crise” que reflectem esta tensão característica da nossa cultura cívica, quase quinze anos depois da mudança de regime.

Embora extremo, o divórcio português entre liberdade política e financeira não é único na Europa ocidental. Numa reunião recente em Turim, durante a qual o Sr. Prodi se mostrava encantado com o orçamento do seu Ministro Padoa-Schioppa, surgiu uma pergunta da sala: porque é que ninguém se importava com a quebra que havia sido anunciada no rating da Itália? Quer dizer que a cultura cívica deste país fundador da Comunidade Europeia também parece julgar que o rating é com os financeiros quando tem a ver com todos os cidadãos!

É grave o paralelo, porquanto a sociedade civil é mais vibrante na Itália do que em Portugal, onde este mito não foi ainda reconhecido como tal. Por isso o ponto fundamental da cultura cívica tanto motiva a disfunção das mudanças de regime complementares como o seu reduzido impacto na opinião pública.

 

4. Instituições e políticas em sistemas de governação a dois níveis, como a zona euro

Como se disse acima, a lembrança da pressão exercida pelo Fundo Monetário Internacional em 1976 e 1983, explica uma preocupação portuguesa durante as negociações do Tratado de Maastricht, relativa ao apoio financeiro da Comissão Europeia em caso de dificuldades nos pagamentos externos. A pressão dos pares comunitários era considerada preferível, por mais suave. Talvez se não conhecesse então a complexidade do sistema de governação económica a dois níveis, pelo que se não duvidaria da sua efectividade. Descreve-se o sistema do eurosistema na secção 4.1. e indicam-se alguns aspectos do mecanismo cambial do Sistema Monetário Europeu mais marcantes para Portugal (secção 4.2.).

 

4.1. A matriz de governação económica

Para projectar a cultura cívica na política macroeconómica, há que ter em conta as instituições nacionais e europeias que caracterizam o sistema de governação da zona euro. Estas complexidades são incontornáveis na aplicação da análise a uma sociedade particular como a nossa. Já foi referido Tommaso Padoa-Schioppa. Enquanto responsável pela DG ECFIN, fez em 1987 um relatório para Jacques Delors, no qual também participou Michael Emerson (grande amigo de Portugal) que em 1990 dirigiu a elaboração de um relatório sobre a União Monetária. A grelha de análise foi adaptada num relatório para o conselho ECOFIN durante a última presidência inglesa, do qual se retira o quadro 2.

Aí se ilustra a complexidade da governação que se verifica até agora e que vai continuar a verificar-se quer na regulação dos mercados (dita micro) quer na política macroeconómica. Repare-se que tal complexidade já existia nos estados membros de natureza federal mas tem consequências mais graves num sistema híbrido como é o europeu. Por um lado, uma unificação da parte monetária e cambial e, por outro, regras de coordenação bastante complexas dos orçamentos nacionais, incluíndo os já mencionados procedimentos dos défices excessivos e dos programas de estabilidade e crescimento constantes respectivamente do Tratado e do Pacto.

Quadro 2 Níveis da governação económica na zona do euro

 

Nível nacional

União

Regulação de mercado

Trabalho

Produto e Capitais

Política macroeconómica

Orçamento

Moeda e Câmbios

Adaptado de Sapir (2005), baseado em Padoa-Schioppa (1987).

Naturalmente isto complica ainda mais a complementaridade das várias políticas, que hoje em dia é fundamental para as reformas serem sustentadas. Como é bom de ver, tal complementaridade exige um desenho das várias políticas em conjunto, bem como a sua concretização simultânea. Pelo contrário, uma sucessão de políticas avulsas que se podem contradizer cria “fadiga de reformas” no eleitorado antes das medidas terem surtido efeito.

A teoria da política económica insiste muito na complementaridade como condição necessária da sustentação das reformas. Assim, uma estratégia de reformas complementares permite que as reformas não soçobrem à primeira dificuldade e tenham benefícios de natureza política e eleitoral. Uma estratégia de reformas complementares é mais difícil quando uma política é governada a um nível e outra a outro[17].

 

4. 2. A surpresa portuguesa

A mudança de regime para a convertibilidade e estabilidade foi uma surpresa total, sobretudo pela circunstância de um processo gradual que permaneceu mal percebido internamente ter culminado tão espectacularmente[18]. Mas a convicção de que Portugal não abandonara verdadeiramente o regime de câmbios deslizantes prevalecente desde 1977 é inconsistente com a informação de que os participantes no mecanismo cambial dispunham.

Atente-se que a peseta e o escudo aderiram ao Sistema Monetário Europeu em 1987 (12 de Maio e 10 de Novembro respectivamente). Em 19 de Junho de 1989, embora ainda não fizesse parte do cabaz de divisas ECU, a peseta junta-se à lira na banda larga do mecanismo cambial. de divisas.  A entrada da peseta e do escudo no cabaz tem lugar a 21 de Setembro de 1989, determinando assim a paridade virtual do escudo (172,1 por ECU). Em 8 de Janeiro de 1990, a lira adere à banda estreita. Em 8 de Outubro, a libra junta-se à peseta na banda larga e a paridade virtual do escudo passa para 178,74 por ECU. Será essa a paridade de entrada, por insistência britânica de não mexer na grelha de paridades. O receio do impacto que qualquer realinhamento da libra poderia ter nas eleições gerais iminentes revela que qualquer taxa de câmbio se torna assunto de interesse comum para os participantes no mecanismo cambial. Essa a essência do código de conduta do Sistema Monetário Europeu.

Apesar do processo gradual ter sido mal percebido internamente, havia argumentos para a data escolhida não ser nem mais cedo nem mais tarde. Não devia ter sido mais cedo porque os três pilares da política económica global (orçamento, concertação social e políticas estruturais e financeiras) só então ficaram assentes. Sabe-se agora que os processos orçamentais estavam demasiado enviezados em favor do défice, sem que houvesse defesas suficientes da estabilidade nominal por parte das forças vivas. Por exemplo, foram ignorados, ou considerados um pormenor técnico, os tectos plurianuais para a despesa sem juro ao longo da legislatura 1991-95 que constavam do programa de convergência Q2.

O argumento de que não devia ser tomado mais tarde reflectia a antecipação de uma crise cambial internacional, como aquela que se declarou uns meses depois, bem como uma avaliação dos custos do regime cambial de preparação para a fixação seguido desde Maio de 1990. Só então foi assumido o abandono da desvalorização deslizante do escudo. O novo sistema implicou uma ligação unilateral ao marco alemão acompanhada de controlos à entrada de capitais. Como não foi apresentado como tal, descrevi-o no debate parlamentar como “uma banda estreita escondida com taxas de juro de fora”[19].

A ambiguidade da liberalização reflectia-se no regime cambial, até porque o próprio regime económico só começou a mudar em 1989. De facto, a mudança de regime económico (complementar da mudança do regime cambial e do processo orçamental) não era credível sem o acordo entre os dois principais partidos para a segunda revisão constitucional. Enquanto vigorou a proibição de privatizar, não fazia sentido tentar cativar os investidores internacionais.

Por isso, mesmo quem soubesse que o código de conduta da convertibilidade e estabilidade estava a ser assimilado, teria a ideia que a desinflação continuaria por via da apreciação nominal do escudo seguida em 1990/91. A promessa de inflação a um dígito (8% em média anual) constante do acordo de concertação social de 15 de Fevereiro de 1992 foi outro pilar. Ainda assim, o timing da entrada foi uma surpresa para os parceiros sociais - e mesmo dentro do governo.

A rapidez da decisão final deu-nos inicialmente grande credibilidade. Além disso, a entrada no mecanismo cambial ter sido concretizada durante a presidência do Conselho de Ministros aumentou o poder de negociação e deu mais impacto internacional à mudança de regime. Houve uma negociação muito longa e difícil da taxa de entrada e uma alteração simbólica da taxa anunciada de 180 escudos por ECU – para que coincidisse com a paridade virtual existente desde a entrada da libra. Mas não houve incidentes especulativos e a adesão foi feita com grande mestria, graças uma vez mais ao apoio da Comissão, nomeadamente através da DG ECFIN[20].

O sucesso da entrada surpreendeu quem nos incluia no Club Med, ignorando o imperativo atlântico e a ligação tradicional ao Reino Unido. Contudo, apesar da perícia técnica revelada, o sistema financeiro estava tão pouco preparado para a convertibilidade quanto o processo orçamental escorava a estabilidade cambial.

O resultado orçamental é desolador, porque nem os procedimentos nacionais nem os comunitários conseguiram parar o aumento das despesas primárias, que passaram de 16% do PIB em 1960 para 45% em 2004 (gráfico 1), registando uma taxa de aumento anual de 0,5% de PIB até 1974, de 0,7% da revolução à adesão e de 1% nos 20 anos de integração. È claro que, desde a crise de 2001, houve sucessivos anúncios de diminuição futura, normalmente incorporados nos relatórios do artigo IV do Fundo Monetário Internacional[21].

O aumento sistemático do peso da despesa primária no PIB condena a capacidade de reforma porque, com a despesa a subir assim, o aumento dos impostos é inevitável. Pior, a despesa excessiva alimenta os aumentos salariais na função pública e o seu contágio às empresas privadas, diminuindo a competitividade relativamente aos outros países do eurosistema. Esta subida sistemática tem sido usada como exemplo da voracidade fiscal que impera entre nós[22]. É ainda mais extraordinária em termos comparativos tendo em conta a queda das taxas de juro, visível no gráfico 2.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5. Dominância estratégica do ministério das finanças sobre os ministérios gastadores

A análise jurídico-económica do processo orçamental é mais reconhecida do que quando convidei o seu principal autor a apresentar as suas ideias no parlamento português[23]. Em trabalho recente para o Ministério das Finanças holandês, apresenta a taxa do acréscimo real das despesas públicas entre 1980 e 2000, bem como dados que demonstram o grau de influência do Ministro das Finanças no processo orçamental no fim daquele período.

Cada um dos índices já é uma média de vários outros mas fazendo uma média simples, vê-se que Portugal e a Suécia têm a nota mínima de 0,3 ao passo que o Reino Unido tem a nota máxima de um. As notas mínimas são contudo bem diferentes porquanto na Suécia a implementação do orçamento não é da competência do governo, de modo que a Suécia leva a nota zero ao passo que, em Portugal, é o governo que tem essa competência com uma nota de 0,5 (próxima da média dos 15). Também é revelador o caso da Grécia, que está na média apesar de um poder fraco na fase de formulação, graças às notas altas nas duas outras fases.

Para resolver o problema da dominância estratégica, há dois sistemas: o da delegação junto do Ministro das Finanças, aplicável a governos de maioria, e o contrato entre parceiros de governo. Esta é pois uma análise essencial para se perceber porque em certos países é mais fácil mudar a cultura da despesa e o processo orçamental do que noutros.

Note-se que, no fim dos anos 1980, ainda não havia na DG ECFIN uma recolha comparativa sistemática dos calendários orçamentais, para não falar já nas diversas fases do processo. Vale a pena esclarecer o alcance da classificação minuciosa das fases do processo orçamental, baseada em inquéritos aos participantes e na elaboração de índices referentes à formulação, aprovação e implementação do orçamento

Como dei a entender ao falar do alegado conflito entre voto maioritário e liberdade financeira em Portugal, o orçamento está na essência da democracia e portanto da resolução do conflito entre quem tem de gerir o recurso comum que são os impostos e quem tem de decidir quais os grupos sociais que beneficiam da despesa (que só é pública em nome)[24].

Quadro 3 Poder do Ministro das Finanças sobre as três fases do orçamento

Países da UE 15

Fase da formulação

Fase da aprovação

Fase da implementação

Média das fases

Portugal

0,1

0,3

0,5

0,3

Grécia

0,1

0,8

1,0

0,6

Média dos 15

0,5

0,7

0,6

0,6

Min (Suécia)

0,4

0,5

0,0

0,3

Max (R.Unido)

1,0

0,9

1,0

1,0

Fonte: Adaptado de Hallerberg et al (2004)

Atribuir à cultura cívica a circunstância de Portugal ser o país da União Europeia onde o Ministro das Finanças tem menos poder não substitui um juízo de valor, apenas sugere que muitos dirão:”Que bom!”. Ora não é bom, é mau para a economia e para a democracia, até porque o conflito diminui uma já baixa pressão externa para a mudança do processo orçamental.

Relacionado com este ponto está um aspecto relativamente menos explorado por economistas, apesar de começar a avançar bastante o seu uso por organismos internacionais, como o Banco Central Europeu ou o Fundo Monetário Internacional. Tem a ver com enquadrar tudo isto no sistema eleitoral e tentar radicar o comportamento fiscal no sistema de governo (mais presidencial ou mais parlamentar). O sistema eleitoral ser mais ou menos proporcional tem ainda implicações sobre o número de partidos e a variedade, até ideológica, que existe no interior dos governos. Portanto comparar os vários países nesta área explica não só as dificuldades que pode ter uma mudança de regime mas também a sustentabilidade do novo regime.

Assim, o número de partidos que participam num governo varia entre um na Espanha, Grécia e Reino Unido e cerca de quatro na Bélgica, Itália e Finlândia. A meio estão Dinamarca, Holanda, Áustria, Alemanha, Portugal e Suécia.

Do mesmo modo, a variação ideológica no que toca à política económica varia entre entre 0,4 (Finlândia) e zero (quando o governo é de um só partido), estando Portugal, Dinamarca e Irlanda à volta de 0,2.

No que toca à competitividade do sistema, medida pelas mudanças de coligação sem convocar novas eleições, a Itália, Irlanda e Holanda são superiores a 70% tendo Portugal e Reino Unido registado os valores próximos de 20%. Esta proximidade luso-britânica contrasta com posições extremas relativas à taxa de aumento real das despesas públicas citada acima: –1,5% por ano no Reino Unido e acima de 5% em Portugal[25]. Por outro lado, como se disse no final da secção anterior, estão em extremos opostos no que toca ao poder do Ministro das Finanças[26].

Antes de passar em revista o modo como os nove titulares da pasta das finanças acompanharam a mudança de regime nos últimos quinze anos, gostaria de voltar ao papel da governação europeia no processo orçamental nacional, dando outra vez um exemplo italiano.

Trata-se de um pedido ao ECOFIN do Ministro Guido Carli (1914-93), que eu conhecia bem por ter sido colaborador de Robert Triffin (1911-93), meu saudoso mestre em Yale. Era uma pessoa associada à Cofindustria e também tinha sido governador do Banco de Itália. Eu presidia ao ECOFIN e, em articulação com a Comissão Europeia (DGECFIN), estava a ensaiar a vigilância multilateral das economias no quadro dos programas de convergência, cuja apreciação devia ser seguida de comunicados à imprensa nos termos do tratado - assinado mais ainda não ratificado. Ora os britânicos não queriam que tais comunicados obrigassem o Conselho mas apenas a respectiva presidência, para evitar o que consideravam mais um processo burocrático dominado pela Comissão. Guido Carli, porém, esperava que o ECOFIN emitisse um comunicado duríssimo para a Itália, de forma que, quando voltasse para Roma, tivesse argumentos para reforçar o rigor orçamental. E assim se fez o que agora é prática corrente.

Estas regras e a sua comunicação eram prioritárias, até por termos entregue o segundo programa de convergência logo após a Itália. Esta vigilância é ineficaz se as regras não forem respeitadas, o que se prende com a natureza das regras e a circunstância de terem de ser conhecidas, sobretudo quando é um código de conduta que não está legislado.

 

6. Ganhar credibilidade lá fora e vender estabilidade cá dentro

A mudança de regime foi tão gradual que vale a pena reconstitui-la passo a passo, e fazer o mesmo com provas da aceitação pelos mercados e pelos eleitores do que é “viver com o euro”. Sendo certo que o compromisso pela estabilidade veio de cima nos dois principais partidos e se projectou em sucessivos responsáveis monetários (secção 6.1 e quadros 4 e 5), nem por isso a interiorização foi súbita, antes reflectiu o gradualismo da mudança de regime. O elenco das reformas da década de Cavaco Silva e da década seguinte, bem como a natureza da delegação dos Primeiros ministros aos sucessivos Ministros das Finanças, tendo em conta os governadores do Banco de Portugal, também revela diferenças entre a mudança de regime e os períodos subsequentes (secção 6.2).

Sendo o efeito mais evidente da mudança de regime a queda das taxas de juro a longo prazo relativas às obrigações denominadas em marcos, a maior reputação financeira costuma ser avaliada através da queda na volatilidade da taxa de variação da taxa de câmbio do escudo com o marco alemão, incluindo ainda intervenções do Banco de Portugal e outros determinantes da pressão cambial (secção 6.3 e quadros 6 a 8). O contágio da instabilidade da peseta é analisado na secção 6.4 e quadro 9, justificando o receio dos ditos “fundamentais geográficos”.

 

6.1. Da mudança de regime a “viver com o euro”

O passo 1 referido no quadro 4 não foi principalmente financeiro e os passos 2 e 3 não foram públicos, tendo chegado ao meu conhecimento em virtude das funções que ocupava na Comissão Europeia. Já se argumentou na secção 4.2. que a surpresa portuguesa o não foi para os membros do Comité Monetário (ou Económico e Financeiro) porque o escudo estava no cabaz de divisas desde 1989, com uma paridade virtual. Porém, os mercados não teriam aceite a adesão ao mecanismo cambial como credível e esperado o passo 10 antes de preenchidos os passos 6, 7 e 8[27]..

Quadro 4 Mudança de regime em dez passos

1. Revisão constitucional, Agosto 1989

2. PCEDED revisto apresentado na Comissão Europeia, Novembro 1989

Miguel Beleza nomeado Ministro das Finanças, Janeiro 1990

3. Fim do crawling peg anunciado no Comité Monetário, Maio 1990

4. Apresentação pública do QUANTUM e início da 1ª fase, Julho 1990

5. Lei orgânica do Banco de Portugal, Novembro1990

Braga de Macedo nomeado Ministro das Finanças, Outubro 1991

6. Aprovação do Programa de Convergência Q2 pelo ECOFIN, 16 de Dezembro 1991

7. Acordo sobre política de rendimentos e preços para 1992, 15 de Fevereiro 1992

8. Orçamento do Estado onde se proíbe o financiamento do Tesouro por parte do Banco de Portugal (artigo nº 58 da lei nº 2/92 de 9 de Março), Janeiro de 1992

9. Entrada do escudo no mecanismo cambial à paridade virtual, 6 de Abril 1992 (saída da lira e libra, realinhamento da peseta, Setembro; realinhamento da peseta e escudo, Novembro)

Miguel Beleza nomeado Governador do Banco de Portugal, Maio 1992

10. Concretização pelo Banco de Portugal da eliminação dos controles cambiais anunciada em Agosto (prescindindo da derrogação até 1995), 16 de Dezembro 1992 concluindo reformas estruturais e financeiras complementares constantes do programa de governo, do Q2 e do orçamento: a/Regime de administração financeira do Estado (decreto-lei nº 155/92 de 28 de Julho), b/ Racionalização do emprego dos recursos humanos da administração pública (decreto-lei nº 247/92 de 7 de Novembro); c/ Normas relativas aos fundos de investimento e reestruturação e internacionalização empresarial (FRIE, decreto lei nº 214/92 de 13 de Outubro, incluindo os respectivos benefícios fiscais decreto-lei nº 289/92 de 26 de Dezembro); d/ Regime geral das instituições de crédito e sociedades financeiras (decreto-lei nº 298/92 de 31 de Dezembro).

 

O rápido declínio da inflação em 1986/87 foi acompanhado pelo primeiro programa de ajustamento plurianual (PCEDED) que visava o equilíbrio externo e não o ajustamento orçamental (ao contrário do passo 2). Não chegou a configurar uma mudança de regime por causa da ausência de enquadramento constitucional apropriado da actividade privada (passo 1), bem como por causa do colapso do acordo de rendimentos e preços de 1988 devido ao aumento da inflação. Ainda assim, o desvio relativamente à paridade, ainda que virtual, permite explicar a volatilidade cambial antes de ter sido assumido, mesmo confidencialmente, o fim da desvalorização deslizantes, o que só ocorreu por altura da apresentação do Quadro Nacional de Transição para a União Monetária (dito QUANTUM).

Do mesmo modo, seguiu-se à apresentação deste QUANTUM um conjunto de restrições às entradas de capitais cuja administração era levada a cabo pelo Banco de Portugal (tendo as suas competências sido reforçadas por decreto lei do Verão de 1991). A recusa em liberalizar as saídas de capitais configurou-se como uma reversão da mudança de regime até porque coincidiu com o aumento da grelha salarial da função pública em 1991, levando a severa imoderação salarial e ao aumento das taxas de juro a longo prazo (gráfico 2 acima).

Como se disse, os membros do Comité Monetário, ajudados pelos representantes da Comissão Europeia, entenderam melhor a mudança gradual de regime que os observadores domésticos. Por extensão, os operadores nos mercados financeiros internacionais também entenderam melhor do que os cidadãos e empresas o compromisso constante do programa do XII governo relativamente a reformas estruturais como as que constam do quadro 4, passo 10[28]:

Os dez passos da gestão da mudança por parte das autoridades monetárias no sentido da sua aceitação pelos mercados constam do quadro 5. Até pelo elemento de surpresa referido na secção 4.2., os passos da aceitação da mudança pelas forças políticas anteriores às eleições de Outubro de 1995 não são elencáveis sem pesquisa sistemática. Ocorre salientar apenas dois acontecimentos quase simultâneos no início desse ano. Primeiro, a intervenção de abertura do 17º Congresso do PSD no Coliseu dos Recreios, pelo presidente demissionário da Comissão Política Cavaco Silva, salientando a importância da adesão do escudo ao mecanismo cambial[29]. Segundo, a entrevista concedida pelo Secretário-geral do PS à revista Valor, onde, na sequência dos Estados Gerais para a Nova Maioria, aceita a estabilidade cambial e a independência do banco central[30].

Quadro 5 Seguimento da mudança de regime e “viver com o euro”

1. Apelo do Ministro das Finanças ao respeito da convertibilidade cambial pelo Banco de Portugal, Março de 1993

2. Realinhamento da peseta e do escudo, Maio de 1993

3. Melhoria da notação da dívida externa pela Standard & Poor's, Maio de 1993.

4. Crise de Julho de 1993 e alargamento das bandas de flutuação do Sistema Monetário Europeu

5. Prémio de melhor emitente para a República e menção especial para o Ministro das Finanças, Agosto de 1993 (Euromoney)

6. Emissão global em dólares da República, Setembro de 1993

7. Aprovação do Programa de Convergência Revisto apresentado em 15 de Outubro de 1993 pelo Comité Monetário, 30 de Novembro de 1993

Eduardo Catroga nomeado Ministro das Finanças, Dezembro

8. Emissão global em ECUS da República, Fevereiro de 1994

António de Sousa nomeado Governador, Junho

9. Realinhamento da peseta e do escudo, April 1995

Novo Primeiro-ministro nomeia Sousa Franco nas Finanças, Outubro

10. Nome da moeda única escolhido, Dezembro 1995

11. Portugal qualificado para euro, Maio 1997

Pina Moura nomeado Ministro das Finanças Outubro 1999

12. Fixação irrevogável das paridades, Dezembro 1999

Vitor Constâncio nomeado Governador, Fevereiro 2000

Oliveira Martins nomeado Ministro das Finanças, Julho 2001

13. Entrada em circulação do euro, Janeiro 2002

Novo Primeiro-ministro nomeia Ferreira Leite nas Finanças, Abril

Novo Primeiro-ministro nomeia Bagão Félix nas Finanças, Julho 2004

Novo Primeiro-ministro nomeia Campos e Cunha nas Finanças, Março 2005

Teixeira dos Santos nomeado Ministro das Finanças, Julho.

 

Ao compromisso dos dirigentes dos dois principais partidos no Verão de 1989 não correspondeu porém um debate entre economistas que permitisse aos eleitores aferir dos custos e benefícios da aposta no euro, incluindo a necessidade de aproveitar a “boleia de juros” para realizar as reformas complementares. Esta situação perpetuou-se até à crise orçamental de 2001 e foi sobretudo a divergência subsequente que deu lugar a tal debate, na perspectiva de encontrar um “bode expiatório”. Por outras palavras, a desinflação escondida de 1989-91 obnubilou a mudança de regime até à entrada no euro. Depois, foi a instabilidade política (quatro Primeiros Ministros e cinco Ministros das Finanças em cinco anos) que obnubilou as exigências de “viver com o euro”, afunilando o debate para o défice orçamental.

A cultura cívica não ajudou a constituência pela liberdade financeira como garante das liberdades futuras a escorar a ideia portuguesa da Europa expressa na resolução da Assembleia da República nº 19/XI de 21 de Abril de 1995. Ao contrário de mudanças de regime cambial anteriores, o parlamento manteve-se indiferente a esta, que representa uma dimensão crucial da integração europeia.

 

6.2. As reformas da década de Cavaco Silva e da seguinte

Mau grado a indiferença parlamentar ao regime cambial, viveu-se entre 1985 e 1995 um período de reformas muito ligadas à integração económica europeia. Começou com a introdução do IVA em 1986, continuou com o imposto sobre o rendimento em 1989 e levou ainda à harmonização do IVA em 1992. A maneira como interpreto a política económica dessa altura é consistente com o poder orçamental do Ministro das Finanças analisado na secção 5.

O Primeiro-ministro, que tinha sido Ministro das Finanças, acompanhava de perto o processo orçamental e esperava dos Ministros não só que liderassem as reformas mas também que permitissem sustentar o processo de convergência dos níveis de vida dos portugueses com a média europeia. A importância relativa dos dois aspectos alterava-se ao longo da legislatura, ao ponto de, em 1987 e 1993, se ter mudado o titular a meio da legislatura com um padrão semelhante posto que com resultados diversos. Assim o Ministro que participava na preparação do programa de governo devia “ganhar credibilidade externa” para a economia nacional. Devia ser alguém, por exemplo, que percebesse o que era o rating e os mercados financeiros internacionais, além das instituições nacionais (ver quadros 4 e 5).

A importância para a referida credibilidade de adquirir um código de conduta, desde logo em matéria monetária, que é relativamente simples, pois o Banco Central tinha de ser independente de acordo com o relatório Delors de 1989, que constitui a expressão política dos trabalhos citados de Padoa-Schioppa (1987) e Emerson (1990). Além disso, como referido, o processo orçamental ainda era muito pouco conhecido em termos comparativos. Portanto, ganhar credibilidade externa é saber respeitar um código de conduta informal, que inclui não só o que vem nos tratados e pactos, mas o modo como essas leis se aplicam de facto.

Na segunda metade da legislatura, o peso ia para “vender a estabilidade internamente”, ou seja mostrar os benefícios da estabilidade macroeconómica para ganhar as eleições seguintes. O Ministro das Finanças com a sua participação na elaboração das regras do processo orçamental, para mais sendo responsável por um recurso comum, não pode ser alheio à obrigação de “vender a estabilidade” ao eleitorado. Ora aqui, essa alteração funcionou em 1991 mas falhou em 1995 - porque mudou a maioria.

Haverá sem dúvida várias razões, mas uma delas é que a aposta explícita na desinflação que consta do programa de governo levou a uma interacção diferente entre os dois papéis[31]. Depois de vencer as eleições de 1995, o partido que tinha criticado a mudança de regime abraçou o projecto da moeda única, com a divulgação mediática de que o Sr. Kohl, chanceler alemão, acreditava que Portugal podia aspirar à moeda única, baptizada euro no Conselho Europeu de Madrid em que se estreou o novo Primeiro-ministro português. Os mercados acreditaram na mudança de regime antes dos eleitores! Porém, como o processo orçamental não suportou essa mudança, os mercados mudaram de opinião e os eleitores habituaram-se logo à “boleia dos juros” que a mudança de regime permitiu.

Os resultados da década reproduzidos no quadro 6 mostram uma desvalorização média do escudo relativamente ao euro de 5%, uma dívida pública estável em relação ao PIB, um défice orçamental médio de 5% do PIB, uma inflação superior em 7% à média europeia (ou seja uma persistente divergência nominal) e uma convergência real à taxa média anual de 1%, que vai decrescendo de Cadilhe com 2% a Catroga com –0,7%. Excepto no que toca à convergência, as reversões são notórias. 

Quadro 6 Resultados 1985-95 por Ministro das Finanças (%)

 

PTE/€

DD/Y

DEF/Y

Convª nom

Convª real

Mandato

Cadilhe

8

-1

5,0

10

2,0

42

Beleza

2

3

6,0

8

1,0

18

Macedo

3

-2

5,2

6

0,0

21

Catroga

2

2

5,8

2

-0,7

19

Média

5

0

5

7

1

25

Fonte: Adaptado de Macedo (1995), reproduzido em Torres (1996, p. 58)

Portanto, esta oscilação entre 1985 e 1995 permitiu consolidar a mudança de regime cambial, sobretudo tendo em conta que só começara em 1989: as primeiras eleições na Polónia e na Hungria tiveram tido lugar antes da conclusão do texto resultante do acordo Constâncio/Cavaco Silva sobre a revisão da Constituição de 1976[32].

A dimensão do gradualismo, eventualmente excessivo, teve a ver com o facto de a revisão constitucional ter sido adiada tanto tempo. O governo, logo a seguir à revisão, começou a trabalhar na lei do sistema financeiro e noutras decorrências legislativas da mudança de regime, o que ainda demorou três anos. Mas ninguém associou a mudança ao regime cambial. Estava-se mais à espera dos efeitos directos nas privatizações decididas após o 25 de Abril.

Verifica-se em Portugal este caso único de que os mercados acreditaram antes dos eleitores que a inflação iria baixar para um só dígito em 1992, porque a adesão ao mecanismo cambial culminava a mudança de regime iniciada em 1989. Esta alteração de expectativas é uma das características originais da nossa mudança de regime porque resistiu à turbulência de toda a grelha de paridades que só terminou em Agosto de 1993. Para ilustrar a nossa reputação financeira, temos um caso extraordinário. Em 1994, à conta da substituição de um alto funcionário dos serviços de informação (voltamos a Schengen, outra área em que Portugal se conseguiu colocar no pelotão da frente), a agência Bloomberg deu eco a uma suspeita austríaca de que havia um golpe de Estado em Portugal. Suspeita sem qualquer fundamento mas que criou uma pequena perturbação nos mercados. Em poucas horas se restabeleceu a reputação de que o código de conduta do novo regime cambial era praticado pelas autoridades portuguesas.

A desconexão entre mercados financeiros e actores políticos não resulta só do carácter gradual da mudança de regime, com avanços e recuos, incluindo a reversão da tendência para a igualização dos juros em resultado da introdução de controlos cambiais em 1990/91. Também radica na cultura cívica que opõe liberdade política e financeira, democracia e rigor orçamental.

Depois das oscilações sobre o papel do Ministro das Finanças em 1985-95 veio o enfraquecimento da delegação para o Ministro das Finanças.Deixou de controlar a administração pública entre 1996 e 1999. Passou a ser Ministro gastador entre 2000 e 2002 – por também tutelar a economia. Acicatada a cultura cívica, seguiu-se o desaire das eleições municipais em fins de 2001 e ficou aparente a crise orçamental. A demissão do Primeiro-ministro deu lugar a eleições antecipadas e a um ajustamento pró-cíclico. A redução do défice agravou a recessão e induziu um processo de divergência que reflecte a paragem das reformas após a qualificação para o euro[33].

A instabilidade governativa entre 2004 e 2005 afectou igualmente os Ministros das Finanças, sobretudo aquele que participou na elaboração do programa do primeiro governo de maioria socialista, mas foi substituído ao fim de quatro meses.

Em 2006, observou-se uma indiscutível retórica de reforma, assente na cooperação entre Presidente da República e Primeiro-ministro. Sem embargo, temos uma partidarização crescente do governo - além de não ter sido testada a força da delegação no Ministro das Finanças. Portanto, não desapareceu o problema da falta de poder do Ministro, posto que não pareça tão grave agora como quando o titular português era o menos poderoso da UE. Por outras palavras, não se sabe ainda se o actual Ministro é daqueles que tem de ganhar credibilidade lá fora, vender estabilidade cá dentro ou ambas as coisas. Isso é relevante porque o Primeiro-ministro deixou de ser o super-ministro das Finanças que era em 1985-95[34].

 

6.3. Os efeitos da mudança de regime

Neste contexto, os efeitos da mudança de regime aparecem antes de mais na queda das taxas de juro relativas ao marco alemão, uma “boleia de juros” que corresponde a mais de 3% do PIB. Ao ponto de o spread português relativamente às obrigações alemãs ter chegado a ser inferior ao espanhol. A inversão era inevitável, por causa da maior dimensão do mercado vizinho, mas os espanhóis não perderam os dez anos de rigidez que o processo orçamental obrigou os portugueses a perder.

Os efeitos da mudança de regime na reputação financeira podem avaliar-se através da volatilidade da taxa de câmbio do escudo com o marco alemão. A técnica permite definir endogenamente os regimes de acordo com a volatilidade condicional diária da taxa de câmbio[35]. O período de turbulência generalizada da grelha, após a entrada com bandas de 6%, foi naturalmente o mais volátil. De acordo com os dados do quadro 7, porém, segue-se não o período da banda de 15%, durante o qual ainda se verificou um realinhamento, mas sim o período de inconvertibilidade, no qual as autoridades seguiam o marco alemão numa banda estreita não declarada, a que se chama sombra. Assim, depois da crawling peg, temos três regimes definidos pela paridade do escudo e a banda implícita ou explícita de flutuação (S, 6 e 15), bem como pela efectividade da intervenção[36].

Os dados de intervenção não são usualmente tornados públicos, e o mesmo pode acontecer com os respectivos objectivos. Também falta muitas vezes informação sobre os procedimentos diários de esterilização, que visam evitar que as compras ou vendas de divisas afectem a quantidade de moeda nacional, de modo que os efeitos principais se fazem pelas expectativas de variação daquela quantidade e da taxa de câmbio relativa à divisa de intervenção, neste caso o marco alemão. Não sendo possível estabelecer canais de influência da intervenção quer no nível quer na volatilidade da taxa de câmbio, sabe-se que um efeito positivo da intervenção na volatilidade será tanto mais esperado, quanto maior a ambiguidade da política e menor a eficiência do mercado cambial. Por outras palavras, a intervenção é tanto mais efectiva quanto menos necessária[37].

Quadro 7 Volatilidade cambial (desvio padrão médio condicional da taxa de variação percentual da taxa de câmbio escudo-marco)

 

(% por dia)

(% por semana

S (21/9/89-3/4/92)

0,30

0,43

6 (4/4/92-2/8/93)

0,63

0,47

15 (3/8/93-31/12/98)

0,21

0,28

Fonte: Macedo et al. (2003) e Landersmann e Rosati (2004, p. 261; 15= média ponderada dos 3 últimos períodos citados na nota 36)

Ressalvadas as diferenças na definição dos períodos e no cálculo (diário ou semanal) da volatilidade, retira-se do quadro 7 que a banda estreita sombra (S) foi mais volátil do que todo o período da banda a 15%[38]. Uma medida da pressão cambial que pondera as variações da taxa de câmbio, das reservas e do diferencial das taxas de juro confirma esse padrão (quadro 9). Também resulta do quadro 8 que a intervenção no sentido de evitar a apreciação através de compras de divisas predominou no período S tendo ocorrido sobretudo vendas no sentido de evitar a depreciação depois da entrada no mecanismo cambial (períodos 6 e 15).

Quadro 8 Pressão cambial média e frequência de intervenção (%)

Regime

1 Depreciação

2 Apreciação

3 Compras

4 Vendas

S

1,00

-1,11

41

10

6

4,24

-1,04

14

23

15

1,09

-0,86

1

23

Fonte: Colunas 1 e 2 Pereira (2005, p.31) característica dominante do período

            Colunas 3 e 4 Macedo et al. (2003)

Também é no período da banda larga que se afirma a tendência para voltar à paridade, dentro da ideia que é preciso flutuar para fixar com credibilidade.

À medida que as bandas largas aumentam a credibilidade do novo regime, o efeito da intervenção é substituído pelo efeito da paridade. Introduzindo o diferencial das taxas de juro como variável explicativa retira atenua o efeito do desvio relativamente à paridade, sobretudo em períodos de alta volatilidade.

Tendo em conta o efeito de curto prazo da compra e venda de divisas pelo banco central, a credibilidade externa foi atingida em fins de 1992 e confirmada após o alargamento das bandas em Agosto de 1993.

 

6.4. Contágio e “fundamentais geográficos”

A técnica de estimar regimes de volatilidade variável (pelo menos “alta” e “baixa”) subjacente às estimativas apresentadas na secção anterior pode ser alargada a duas divisas, por forma a testar a sua relação recíproca. Nesse caso, define-se contágio como o aumento da correlação bilateral resultante do aumento da volatilidade de uma delas. Especificando o regime de volatilidade alta ou baixa como dependente do diferencial de juro do dia anterior, demonstra-se no quadro 10 que a correlação entre escudo e peseta não varia em função da volatilidade daquele (a diferença entre 0,71 e 0,68 não é significativa) mas passa de 0,61 para 0, 76 quando a peseta passa de baixa para alta volatilidade[39].

A assimetria seria maior se o escudo estivesse fora do mecanismo cambial, até porque, mesmo participando ambas as divisas, o aumento do diferencial de juros quando Portugal está num estádio de crise diminui a probabilidade de sair da crise, ocorrendo o inverso se for a Espanha a aumentar o diferencial de juros. Mais, um aumento do diferencial de juros português diminui a probabilidade de sair da crise, ou seja de passar de alta para baixa volatilidade, ao passo que um aumento do diferencial de juros espanhol aumenta essa probabilidade. Lopes (2006) chama a este último aspecto o “efeito perverso de expectativas”. Os seus resultados, resumidos no quadro 9, qualificam a análise anterior relativa às intervenções na parte em que considera os fundamentais determinantes no período de bandas largas. Ter em conta a correlação entre as duas moedas ibéricas revela que os fundamentais em Espanha afectaram Portugal mas o inverso não é verdadeiro.

Quadro 10 Contágio entre escudo e peseta num modelo com correlações variáveis e estados de volatilidade dependentes do diferencial de juros com a Alemanha

Efeito do diferencial na probabilidade da divisa passar de alta para baixa volatilidade

Correlação varia com escudo

Correlação varia com peseta

Escudo

-0,24

-0,19

Peseta

0,28

0,36

Coeficiente Correlação baixa volatilidade

0,71

0,61

Coeficiente Correlação alta volatilidade

0,68

0,76

Fonte: Adaptado de Lopes (2006, quadro 5, p. 35). Todos significativos a 5%.

Estes testes confirmam que, a despeito dos quatro realinhamentos no mecanismo cambial que envolveram a peseta entre 1992 a 1995, três dos quais foram total ou parcialmente seguidos pelo escudo, a nossa reputação financeira já estava assegurada nos mercados, embora – mais uma vez - os eleitores não soubessem. Como se verificaram os receios dos “fundamentais geográficos” muitas vezes invocados nesse contexto, essa política fez ainda mais sentido porquanto ter sempre seguido a peseta não permitiria qualquer diferenciação positiva, ao passo que ignorar a peseta não seria credível. Nessas condições, ficar fora do mecanismo cambial durante a turbulência levaria a um agravamento do contágio, ou a um reforço drástica dos controles cambiais. Ocorre lembrar que a Grécia não sofria desse problema, pelo que a sua entrada no mecanismo cambial não era tão urgente.

 

7. Conclusão

Desde logo, uma conclusão que não é surpresa mas que deixa as coisas no seu devido lugar: a parte monetária da mudança de regime económico foi feita por pressão europeia directa mas não se pode mudar a constituição fiscal a partir de fora.

Não bastam tratados nem pactos com restrições às despesas e receitas públicas para mudar a constituição fiscal, porque esta assenta num processo orçamental que reflecte o sistema político.

Isto tem de vir de dentro - e não veio. Volta-se à questão da cultura cívica e ao papel da sociedade civil, nomeadamente das associações empresariais.

Perante uma mudança de regime, a sociedade civil não pode pois revelar alheamento, deve ser reactiva e melhor ainda anticipá-la, como acontece na Itália, onde a Cofindustria recolhe dados sobre investigação e desenvolvimento das empresas italianas não cotadas, que revelam mais investimento em I&D do que vinha registado nas estatísticas da agenda de Lisboa – a qual, como se sabe, visa promover a inovação baseada no conhecimento. Estes dados permitem à sociedade civil italiana fazer propostas e de críticas, particularmente ao último orçamento de Prodi.[40]. A diferença entre os dois países é que, mesmo quando a cultura cívica não reconhece a liberdade financeira, e revela certa indiferença relativamente ao rating, a I&D a nível empresarial/privado está melhor acautelada na Itália do que em Portugal.

A nossa competitividade não só não tem evoluído como foi já ultrapassada pela China em termos de incorporação de conhecimento[41]. É de facto preocupante, porque as nossas reformas não têm durado o suficiente para que as empresas se sintam parte interessada, e por isso mantêm-se quanto muito reactivas. Para explicar a inércia das empresas portuguesas em se virarem para o exterior, recorde-se que as reformas complementares do regime cambial, já previstas no primeiro programa de convergência para 1991-95, nomeadamente a reforma da administração pública, ainda não tiveram efeitos concretos por terem sido sucessivamente adiadas. Sem limitação da despesa pública, esta única reforma virou-se contra as exportações, logo contra o investimento. Desde que sejam tomadas medidas sobre o nível e composição da procura que também melhorem a oferta, o endividamento da classe média não é preocupante[42].

O resultado da “boleia de juros” foi uma procura excessiva de bens e serviços transaccionáveis por parte dos residentes, que se manifestou sobretudo em importados e exportáveis. A baixa do preço dos bens não transaccionáveis relativamente aos transaccionáveis exige uma combinação de moderação salarial e desemprego. As reformas complementares do euro aumentam então a produtividade total dos factores, não só trabalho mas também capital (físico, humano, social).

Tendo em conta a baixa classificação de Portugal em termos de produtividade e também em termos de atractividade para o investor, não se vai realizar o alto potencial exportador sem alterar os preços relativos[43]. As consequências sociais e políticas de aguentar mais dez anos de desemprego crescente seriam ainda mais gravosas para a desejada convergência. Resolver este dilema é superar o “esticão do euro”.

Sem uma mudança de regime orçamental, não é possível viver na moeda única em termos financeiros. Nós abandonamos as reformas estruturais durante dez anos, incluindo uma reforma da administração pública sucessivamente adiada.

O balanço 15 anos depois de Maastricht é pois de que, como nem houve medidas complementares nem soubemos manter os custos alinhados com os nossos parceiros do eurosistema, o receado “esticão do euro”verificou-se.

Sem uma estratégia sustentada de reformas, o potencial exportador não se pode realizar. Sem competitividade exportadora, não se pode restaurar uma diferencialidade assente nas pertenças e liberdades dos portugueses.

 

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Anexo: Excertos de Vieira e Santos (2007)

Bons e maus alunos
No rescaldo natalício, surge outra evidência deste fatalismo gastador. Num artigo interno da Direcção-Geral de Economia e Finanças da Comissão Europeia, citado pelo Jornal de Negócios, Portugal surge como um exemplo a não seguir pelos 10 mais jovens membros da União Europeia, em particular para os candidatos à eurolândia. De acordo com o referido documento, assinado pelo português Orlando Abreu, o País não soube dar seguimento à contenção orçamental a que recorreu no período antes da entrada na moeda europeia. Isto, aliado à corrida ao crédito e à recessão económica mundial, que começou a desenhar-se no início desta década, teve o pior dos resultados: sucessivos défices orçamentais, sobreendividamento, baixa produtividade.
 
Irresistível tentação
Coloca-se, todavia, a questão: num período de expansão económica, com o dinheiro a preços nunca vistos e com os níveis de optimismo nos píncaros, seria possível resistir a tamanha tentação? 
Pedro Lains, autor do livro História Económica de Portugal 1700-2000, é claro na resposta: «não». E mesmo os excessivos gastos natalícios não surpreendem o economista. Afinal, «nos Estados Unidos uma percentagem elevada dos gastos anuais está concentrada no período do Natal. Trata-se de um padrão internacional». O que aconteceu, acrescenta, «foi uma resposta dos consumidores a uma baixa das taxas de juro e à sensação de que estas se manteriam estáveis, em baixa. É uma reacção típica de mercado». Que teve consequências marcantes. Os portugueses aumentaram significativamente os gastos em «serviços e construção, que representam cerca de 70% do PIB nacional». O problema, sublinha Pedro Lains, é que são «sectores com produtividades muito baixas».
Deveria o Governo ter travado o aumento galopante do endividamento dos portugueses? A resposta é nim. «Se quisermos encontrar falhas graves, elas vão para as autoridades competentes, pois não procuraram regular o recurso ao crédito.» Mas seria possível fazê-lo? Pedro Lains diz que «teria sido muito difícil. Provavelmente impossível. Dificilmente algum país teria tido flexibilidade suficiente para fazer face a um choque externo deste género».
 
Culpas para os governos
Neste aspecto, os portugueses podem descansar. «Somos iguais a todos os outros. Tivemos uma reacção racional, totalmente racional, com consequências na produtividade da economia.» Não se trata, portanto, de uma incontrolável propensão para o abismo inscrita no nosso código genético.
Mas se nós, cidadãos, consumidores, não falhámos, apenas fizemos o que era racionalmente esperado, o que correu mal? Para quem vão as culpas do descalabro? O economista Jorge Braga de Macedo, exministro das Finanças, não tem dúvidas. Elas vão, por inteiro, para os governos. «No Orçamento do Estado para 1992 já se falava em mobilidade no sector público, mas na época disse-se que era uma loucura», recorda, enquanto põe o dedo na ferida: «O euro foi a única reforma feita entre 1995 e 2005. Uma reforma apenas é muito pouco para 10 anos.» Pelo caminho, sublinha, «a despesa primária aumentava, enquanto nos outros países da União estabilizava. Não nos habituámos a viver na zona euro porque o Estado não deu o exemplo». Esta é a face do mau aluno. Mas Portugal também teve a outra, o do aluno exemplar, como é referido no artigo de Orlando Abreu. Sendo um país com tendência inflacionista, soubemos, em menos de 10 anos, contrariá-la.
Pelo caminho foi-se perdendo uma tradição muito portuguesa de poupança e aderimos em força à moda de gastar o que não temos. Mas nem todos o fizeram. «Os juros baixos foram atabalhoadamente usados pelo Estado e pelos particulares e não pelas empresas. Estas não tiveram vontade de mudar.» Resultado: a procura direccionou-se para os bens não transaccionáveis, ou seja, importamos de mais e exportamos menos «a orientação da despesa pública foi contra as exportações», sublinha.
O País continua a ter muito boas condições para se afirmar. Braga de Macedo destaca a nossa localização, «que é excelente. Porque é que em Espanha as apostas de turismo primam pela excelência e qualidade e cá só agora se está a avançar para aí?», pergunta Braga de Macedo. As empresas também ainda vão a tempo. Mas é preciso uma «nova organização do trabalho», sustenta. Mas, mesmo que ela não surja, «as empresas vão encontrar formas de se tornarem mais produtivas. Só que isso vai demorar mais tempo e agravar o desemprego», adverte.
Neste cenário, já negro, falta o endividamento. E, neste capítulo, Braga de Macedo não se mostra particularmente preocupado. Para o economista, «o endividamento só se torna excessivo quando é acompanhado por um ausência de investimento» e, neste momento, acrescenta, «a economia mundial está a andar. Se continuarmos a exportar, não acredito que haja insuficiência de procura nacional e insolvências familiares. A classe média está mais sólida e isso viu-se no Natal». Ou seja, se, em 2007, voltarmos a bater recordes de gastos natalícios, isso só pode ser bom. Será?


[1] Versão anterior (que apareceu como Nova Economics Working Paper nº 502, Fevereiro de 2007) foi apresentada: na 7ª sessão ordinária da classe de letras da Academia das Ciências de Lisboa, realizada em 12 de Abril para comemorar os 15 anos da entrada do escudo no mecanismo cambial, na presença do Dr. José Braz, então Secretário de Estado do Tesouro e Membro do Comité Económico e Financeiro, e do Dr. Francisco Torres, então Assessor do Ministro das Finanças; no Mestrado de Política Comparada do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa; na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho. Agradeço os comentários dos eminentes confrades e demais participantes.

[2] Os signatários foram convidados pelo presidente da câmara municipal de Maastricht para comemorar o 15º aniversário, incluindo o lançamento de Akker (2007) e uma exposição alusiva que incluiu, pela primeira vez, o original do documento (transportado de Roma para o efeito). O evento deu lugar a um encontro emotivo entre oito signatários, um dos quais, Primeiro-ministro (e Ministro das Finanças) do Luxemburgo, fez a alocução comemorativa. Aí aflorou a ideia do “bom aluno” português em matéria europeia, como referido na nota 18 abaixo. Remeto quem quiser esmiuçar os argumentos subjacentes ao texto para “Convergindo para um padrão ecu” em Macedo et al. (1995); “Europa seguro contra a voracidade” em Ribeiro et al (2003); “A integração europeia de Portugal: o bom aluno com uma má constituição fiscal” em Royo (2005). Ver ainda Diário Económico de 7 de Fevereiro de 2007.

[3] International Monetary Fund (2004, p. 94). Ressalta claramente das publicações oficiais da altura que a mudança só é credível se o processo orçamental ajudar o regime cambial a manter a estabilidade. Também Braz (1992) e Torres e Giavazzi (1993).

[4] Pelo contrário, deu lugar ao “esticão do euro” assim descrito em Macedo (1998): “o perigo de exclusão deixou de se aplicar à moeda para se aplicar agora aos cidadãos”. Isto por causa da permeabilidade governamental, que “resulta tanto do medo geral de perder votos como da incapacidade específica revelada em reformar a administração pública, em especial a fiscal”. Listei outros artigos de divulgação sobre o tema em www.prof.fe.unl.pt/~jbmacedo/pt/Euro.htm. O anexo reproduz extractos de Vieira e Santos (2007), explicando como, além do nível excessivo da procura interna, a sua composição desfavorece as exportações.

[5] O sentido corrente de mudança de regime, mais tributário da política do que da economia internacional (e muito marcado pela experiência dos estados frágeis e por certos países do Médio Oriente), torna a expressão espectacular em vez de original. Continua, porém, correcta, até pela razão apontada no texto.

[6] Dados da OCDE apresentados em Blanchard (2006, quadro 2). Abreu (2006, gráfico 7) apresenta uma apreciação ainda maior da taxa de câmbio real efectiva relativa a 35 países industriais.

[7] Causa e Cohen (2006), Rodrik (2006) e nota 41 abaixo.

[8] Wilson e Purushothaman (2003) previram uma classe média global em expansão graças ao crescimento sustentado destas cinco economias. World Bank (2006) aprofunda o ponto. Ver ainda notícia de 12 de Janeiro de 2007 em www.iict.pt.

[9] Assim lhe chamei em Bliss e Macedo (1990). Entre outros relatórios da Comissão Europeia, Padoa-Schioppa (1987) e Emerson (1990), citados adiante no texto, queriam contrariar a visão da “Europa fortaleza” comum nos meios anglo-saxónicos.

[10] Este tema é tratado em maior detalhe em Macedo (2006), onde se encontram referências à diferencialidade, conceito devido a Jorge Borges de Macedo que é objecto de um projecto a decorrer no Instituto de Investigação Científica Tropical.

[11] Blanchard (2006) tem precisamente esse argumento. Ver também nota 39 abaixo.

[12] O programa Q2 e documentos conexos vêm reproduzidos em Ministério das Finanças (1991). A principal inovação foi incluir tectos nominais para a despesa sem juro ao longo da legislatura e um conjunto de reformas estruturais e financeiras complementares, que constituiam os três pilares da política económica global. Ver secção 6.1, especialmente os quadros 4 e 6.

[13] A proposta do programa vem reproduzida em Ministério das Finanças (1993, pp. 355-370).

[14] Além das referências citadas na nota acima, ver “Crises? What Crises? Escudo from ECU to EMU”, Nova Economics Working Paper n.o 313, Setembro de 1997, abreviado em Haussmann e Fukasaku (1998) e Griffith Jones et al (2001), bem como o relato da minha experiência profissional na Comissão Europeia, no Ministério das Finanças e no Parlamento em www.prof.fe.unl.pt/~jbmacedo/career.htm.

[15] Ministério das Finanças (2006, parte IV). Intitulada “Instituições, processos e regras orçamentais”, tem duas secções: “Processo e Elaboração do Orçamento do Estado” e “Regras Orçamentais de Tipo Numérico”. Os programas para 2002/05 (Dezembro de 2001), 2003/06 (Janeiro de 2003) e 2005/09 (Dezembro de 2005), disponíveis na página do Ministério, fazem apenas alusão à reforma da administração pública. Registe-se também a criação da Unidade Técnica de Apoio Orçamental pela Resolução da Assembleia da República no 13/06 de 7 de Agosto. Ver ainda a literatura jurídico-económico-política sobre processos orçamentais abaixo nas notas 21/22, nomeadamente European Commission (2006).

[16] A situação era anómala num âmbito mais vasto. Lembro-me de colegas da Europa central e oriental que encontrava nas missões da Comissão Europeia por altura da queda do muro de Berlim me dizerem que a nossa Constituição Política era “estalinista”. De facto, na Europa central e oriental não havia liberdade nem política nem financeira portanto não se punha o problema concreto da tensão entre elas e a tensão abstracta imposta pela ideologia dominante desapareceu no Verão de 1989, com as eleições livres na Polónia e na Hungria. Ver nota 31 abaixo.

[17] A estratégia das reformas estruturais tem sido a tónica do curso de mestrado de pesquisa que tenho oferecido com Joaquim Oliveira Martins no Instituto de Estudos Políticos de Paris, e que permitiu confirmar a importância da complementaridade. Hagen (2003) considera que se deve precisamente à “fadiga das reformas”a reversão da consolidação orçamental nos países do eurosistema após a decisão de Maio de 1998 sobre os onze que cumpriam os critérios. Note-se que, na Grécia, o esforço continuou, tendo sido acompanhado de um reforço do poder do Ministro das Finanças, como se vê no quadro 3. Em Macedo (2007b), reflicto sobre a experiência do conselheiro económico nas reformas estruturais, argumentando que temos mais dificuldade em sustentar do que em iniciar reformas. Os momentos de entusiasmo existem durante uns anos e depois vem o pessimismo. O momento de entusiasmo está lá, pode-se documentar e recomenda-se.

[18] Apesar de ter sido apresentado na concertação social na véspera e ter sido objecto de debate parlamentar na terça-feira seguinte. Ao argumento da convergência juntava-se o da efectividade da presidência num ambiente de volatilidade cambial: “Um país em convergência e na Presidência não poder participar decisivamente numa eventual reunião de realinhamento seria contrário aos interesses de Portugal e da Comunidade” Ministério das Finanças (1992, p. 420). Uma confirmação inesperada deste segundo argumento veio num à-parte do Primeiro-ministro e Ministro das Finanças do Luxemburgo, durante a alocução comemorativa mencionada na nota 2 acima. A certo passo, a propósito do realinhamento de Setembro de 1992 (o único que afectou a peseta mas não o escudo), disse “nada se faz sem Portugal”. Até pela razão (reconhecida em Akker 2007, p. 166), de que Portugal tinha a presidência na altura da cerimónia de assinatura, julgo ter sido uma maneira elegante de reconhecer o “bom aluno” enaltecido em Macedo (2007a).

[19] Ministério das Finanças (1992, p. 419). A sintonia entre governo e banco vem claramente expressa no discurso de posse do anterior ministro como governador ibid. p. 393-405 (a data vem erradamente como 4 de Maio), por ex: “não se trata tanto de substituir pessoas como de continuar a colaboração institucional entre Terreiro do Paço e Rua do Comércio, numa óptica de preparação da UEM” (p.397); Esta sintonia (entre Ministério e Banco) resulta dos três pilares da política económica global se articularem com uma taxa de câmbio fixa no quadro do princípio de não acomodação a eventuais desvios inflacionistas. Neste princípio de não acomodação, livremente adoptada pelo Governo, reside a essência da independência do banco central que a UEM vai consagrar já a partir da segunda fase, a iniciar-se em 1994. Também no que toca à independência do Banco Central, o Governo antecipou-se aos calendários impostos pela Comunidade. Fá-lo aliás sempre que isso é do interesse do povo português.” (p. 399). No que toca ao regime cambial de pré-fixação ver ainda Bliss e Macedo (1990) e Macedo (2007b).

[20] A presença de funcionários da Comissão no Tesouro facilitou a aceitação de certos aspectos mais arriscados como o anúncio antecipado da paridade desejada e o facto dela ter sido declarada relativamente ao ECU e não ao marco alemão. Mau grado as referências da nota 17 acima (e Macedo 2007b), esta história está largamente por fazer.

[21] Isto revela a atitude conhecida por mañana: “eu deixo de fumar - ou deixo de comer bolos - amanhã (e amanhã direi o mesmo)”. Uma nota quanto aos dados, que também têm sido sucessivamente revistos, nomeadamente no sentido de os adequar ao sistema europeu de contas nacionais e regionais (ESA 95), o qual, a partir de 2000, passou a ser a referência para a vigilância orçamental.

[22] Ribeiro et al (2003, pp. 217-234). A combinação dessa voracidade com o aumento dos custos de trabalho por unidade produzida relativamente aos outros países do eurosistema e com a consequente apreciação da taxa de câmbio real é ilustrada por último em Abreu (2006).

[23] Macedo (1994) refere a visita de Jurgen von Hagen, salientando a novidade da sua abordagem. O seu primeiro trabalho apareceu como Economic Paper nº 96 da DG ECFIN, tendo sido aprofundado com Ian Harden em 1994. Colaborou uns anos depois comigo e com o meu saudoso colega de Princeton William Branson numa aplicação aos países da Europa central e oriental, reproduzida em Landesmann e Rosati (2003, pp. 27-48). Como se referiu na nota 15 acima, o último programa de estabilidade e crescimento português reflecte esta literatura, seguindo provavelmente European Commission (2006).

[24] Como se disse, o processo orçamental português foi considerado “fragmentado” num relatório do Fundo Monetário Internacional no qual se divulga esta literatura. Hallerberg et al. (2004) resume os principais pontos do citado relatório de 2001 para o Ministério das Finanças holandês. A interacção entre a política e a economia é muitas vezes reflexo da relação entre cidadão e orçamento nos termos da constituição fiscal. Como referia nas apresentações públicas dos orçamentos, por exemplo Ministério das Finanças (2003, p.11), tratava-se antes de mais de um “contrato de colaboração” com os contribuintes. Esta literatura reflecte no processo orçamental aquele dito atribuído a Winston Churchill segundo o qual os inimigos estão dentro da mesma bancada parlamentar e os adversários é que estão do lado de lá. 

[25] O Luxemburgo está ligeiramente à frente de Portugal. Como se diz na nota anterior, a fonte dos dados do quadro 3 é um trabalho encomendado aos autores pelo Ministério das Finanças holandês.

[26] Esta é matéria do meu curso de introdução à macroeconomia na Nova. Para os alunos perceberem a realidade nacional e europeia, costumo levá-los às instituições mais relevantes da política macroeconómica, Ministério das Finanças, Parlamento e Banco de Portugal. Este ano, invocando os dados reproduzidos no quadro 3, um deles perguntou ao Ministro se achava que tinha poder. Habilíssimo, ele respondeu que tinha poder bastante, embora reconhecesse a legitimidade do exercício comparativo com os seus homólogos do ECOFIN. A ênfase nos procedimentos orçamentais que se observa no último programa de estabilidade e crescimento não se deve tanto a esta interacção com a universidade como à reprodução da literatura relevante numa publicação da DG ECFIN, citada na nota 21 acima!

[27] Em entrevista, Cavaco Silva (1998) salienta os passos restantes. Um dos entrevistadores, em editorial, reconhece que o passo 9 foi tomado no "último momento em que isso era possível". Não parece contudo entender que, como se diz no texto, além do "último momento", se tratava também do primeiro. As reformas estruturais descritas são retiradas da minha página pessoal, morada referida na nota 4 acima, e vêm elencadas em Ministério das Finanças (1991, 1992a, b e c, 1993 a e b).

[28] Ao elencar uma série de reformas estruturais como condição da adesão da Grécia ao mecanismo cambial em 18 de Março de 1998 ter sucesso, o respectivo comunicado do Comité Monetário confirma isso mesmo. Já no processo de liberalização dos controles cambiais a Grécia beneficiou da experiência portuguesa pois também não esgotou a derrogação de que beneficiava até 1995 (cf. contribuições em Griffith-Jones 2001, p. 254; Landersmann and Rosati, 2004, p. 252). Mais, concluiu a liberalização como resposta eficaz a um ataque especulativo em 1994, na linha de Bartolini e Drazen (1997), citado na versão mimeografada do FMI de Novembro 1994 na contribuição em Torres (1996, p. 32).

[29] Este discurso vai assim mais longe do que Silva (1995), que refere as dez reformas da década. A resolução nº 19/XI de 21 de Abril de 1995 que aprova princípios gerais da revisão do Tratado da União Europeia que se configuram como uma verdadeira ideia portuguesa da Europa insere-se nesta linha mas não teve impacto público: o papel do parlamento manteve-se diminuto em matéria monetária ao contrária do que acontecera em 1854. Ver Assembleia da República (1995) e Macedo et al (2006, p. 167).

[30] Perdoe-se o patriotismo FEUNL mas parece claro que os almoços de António Guterres com alguns membros do corpo docente ajudaram à educação monetária do engenheiro. Neste processo é de destacar o papel de Luís Campos e Cunha, que viria a participar nos Estados Gerais, a ser nomeado vice-governador do Banco de Portugal pelo Primeiro Ministro António Guterres e a preparar o programa de estabilidade e crescimento de 2005, enquanto primeiro Ministro das Finanças de José Sócrates.

[31] Como se indicou no início, a aposta deu lugar a uma série de iniciativas no início da legislatura, nomeadamente no programa de convergência Q2 (aprovado pelo ECOFIN em 16 de Dezembro de 1991, a meta de inflação de 8% para 1992 e políticas estruturais e financeiras complementares) que suportou os orçamentos para 1992, 1993 e 1994 (este último com as adaptações do programa de convergência revisto aprovado em fins de 1993). Ver fontes citadas na nota 28 acima para mais detalhes sobre o processo, tendo em conta alguns dos catorze pares citados nos quadros 5 e 6 (dez ministros e três governadores além do par constituído pelos actuais titulares).

[32] Esta anomalia da nossa cultura cívica já foi referida na secção 3 acima, especialmente na nota 16.

[33] Hagen (2003) reforça este argumento com as datas de eleições parlamentares ou presidenciais, entre 1998 e 2001, mostrando que elas afectam significativamente o défice orçamental do ano anterior. Portugal regista três datas, a Finlândia duas e os restantes treze países uma única data.

[34] O processo orçamental é referido nas notas 5 e 15 acima.

[35] Os primeiros testes usando dados diários para o período 5/1/87-19/4/97, que levei a cabo com Luís Catela Nunes vêm em Griffith-Jones et al (2001, p. 258) mas não convergiram quando se actualizou até 15/10/98, como referido num trabalho em co-autoria “Moving the escudo into the euro” divulgado como Nova Economics Working Paper nº 346, Fevereiro de 1999 onde se estima o desvio padrão médio condicional reproduzido no quadro 8.

[36] No trabalho citado na nota anterior, publicado em Landersmann e Rosati (2004, p. 261), estima-se a volatilidade condicional do escudo, obtendo-se os valores constantes do quadro 8 e ainda: 0,3 durante a crawling peg (28/1/87-4/7/90), 0,4 durante a banda larga até ao último realinhamento (11/8/93-8/3/95), 0,28 durante a banda larga antes da estabilização (15/3/95-5/11/97),  0,08 durante o último período (12/11/97-14/10/98).

[37] Pelo contrário, quando os sinais da intervenção são credíveis e o mercado eficiente, esta deixa de afectar a volatilidade ou consegue mesmo reduzi-la, ao passo que o efeito no nível vai na direcção desejada, depreciação quando o banco central compra divisas, apreciação quando as vende. Graças à disponibilização dos dados de intervenção pelo Banco de Portugal, conseguiu-se confirmar que, até ao largamento das bandas, a intervenção só foi efectiva quando a volatilidade era baixa, já que, quando a volatilidade era alta, só o diferencial de juros era significativo. Pereira (2004) introduz o diferencial das taxas de juro como variável explicativa no modelo de Macedo et al (2003).

[38] A variável medida é a taxa de variação semanal/diária da taxa de câmbio calculada como 100 vezes a variação do logaritmo da taxa. Por definição a variação semanal é a soma das 5 variações diárias. Logo a variância da variação semanal = variância da soma de 5 variações diárias = 5 x variância da variação diária + soma das covariâncias das variações diárias. Ou seja, existem duas parcelas: a primeira parcela é sempre positiva mas a segunda pode ser nula, positiva ou negativa. Em Macedo et al. (2003) aparece o valor de uma das correlações (de 1ª ordem) que é negativa em todos os períodos. Este valor negativo é uma indicação de que a segunda parcela será negativa o que explica a razão pela qual a variância semanal não será igual a cinco vezes a variância diária. Se as correlações forem suficientemente negativas, o desvio-padrão semanal pode mesmo vir inferior ao diário (como é o caso do 2º período). Agradeço este esclarecimento do quadro 7 a Luís Catela Nunes, co-autor dos trabalhos originais. Além das fontes dos quadros 7 e 8, no quadro do IICT, estes testes foram aplicados a outras divisas, como resumido em Macedo e Pereira (2007). Por isso afirmo em Macedo (2007a) que - tal como o escudo português antes de ser escolhido para entrar no eurosistema - o escudo caboverdiano tem credibilidade sem ter rigidez.

[39] Este efeito verifica-se num modelo em que o regime de volatilidade não depende do diferencial de juro. Lopes (2006, p. 33). Note-se que, ao contrário dos quadros 8 e 9, Lopes (2006) inicia a amostra depois da restauração da convertibilidade do escudo. A razão indicada é não possuir antes dessa data dados sobre o diferencial de juro português (como refere na errata distribuida durante as provas em Novembro de 2006; na tese de mestrado refere a taxa espanhola). Assim o período 6 começa a 17/12/92 e o período 15 termina a 30/12/97. Em comentário ao seu quadro 3, p. 31, nota ainda que a correlação é muito baixa até 31 de Março de 1993, aumentando para 0,74 (valor próximo de 0,76, indicado no quadro 8) a partir de Abril. Os testes de rácio de verosimilhança apresentados demonstram que: o modelo com o modelo referido no texto é preferido ao modelo com probabilidades de transição constantes referido no início desta nota; que o modelo com a correlação a variar em função do regime português não é preferido ao modelo com correlação constante (não indicado no quadro 9); o modelo com a correlação a variar em função do regime espanhol é preferido ao modelo com a correlação a variar em função do regime português (reproduzidos no quadro 9, 2ª e 1ª coluna respectivamente).

[40] Na reunião em Turim a que já fiz referência, o Sr. Pininfarina, filho do desenhador de automóveis que agora dirige a empresa familiar e que está associado à Cofindustria, fez uma análise extremamente interessante da investigação e desenvolvimento das empresas italianas não cotadas baseada nesses dados.

[41] Rodrik (2006), adaptado no quadro de um acordo de consultoria com o Ministério da Economia e divulgado no seminário Thinknomics em 3 de Novembro de 2006.

[42] Por isso concluo que as insolvências familiares que se verificarem não criarão insuficiência da procura nacional e conseguiremos atrair investimento interno e externo – desde que continuemos a exportar!

[43] Reconhece-se nesta última frase a abordagem de Causa e Cohen (2006). Ver anexo, tendo em conta que, no terceiro parágrafo a partir do fim, se deve ler “bens transaccionáveis” onde se lê “bens não transaccionáveis” – como tive oportunidade de esclarecer o autor, com o qual acordei a solução descrita na nota 4 acima.