Paul Krugman
Riu-se e exclamou:"É inacreditável" quando lhe disse que uma revista portuguesa o tinha escolhido como figura marcante do século XX. Estávamos no Maine rural, perto de Paris, e acabava de lhe mostrar o texto de uma entrevista ao Financial Times (10 de Julho de 1999), onde, mais uma vez, é considerado "o economista mais popular desde J.K.Galbraith".
Entrevista tanto mais oportuna quanto é certo que refere um lado pouco conhecido do seu vasto curriculum, o de conselheiro do governo português. "O governo post-Salazar (mais precisamente o primeiro governo constitucional) lutava contra a desvalorização que Krugman recomendara; mas depois de 18 meses de resistência, fizeram o que deviam". E a entrevista continua, comparando as opiniões deste economista dos economistas acerca do Japão (onde propôe a inflação), do Brasil (onde previu uma catástrofe depois da desvalorização do real) ou do euro ("é político, não tem lógica económica suficiente").
Aí se avalia a si próprio com um minimalismo esclarecedor: "vou ser um pouco imodesto agora. Era um economista internacional de topo desde o fim dos anos 80, portanto já tinha reputação financeira (antes de prever o fim do milagre asiático num famoso artigo do Foreign Affairs em 1994). Mas através de uma combinação fortuita de estar no sítio certo no momento certo e de ter cuidado com a língua inglesa, criei uma segunda carreira enquanto incómodo público, ou seja lá o que fôr que sou hoje".
Logo depois do Verão passado em Portugal, doutora-se no Massachusetts Institute of Technology (diz que em três semanas escreveu a tese mais um artigo sobre crises da balança de pagamentos que é dos seus mais citados mas que o orientador achou demasiado próximo da tese de Pentti Kouri, seu futuro colega em Yale).
Passa uns anos como professor auxiliar em New Haven, Connecticut – onde já se licenciara, no Calhoun College, Yale - e começa a questionar a teoria do comércio internacional baseado nas vantagens comparativas através de argumentos de economia industrial e de geografia económica. Não esquece raízes ancestrais russas, que lhe dão um gosto pela intelectualidade europeia anti-soviética então quase clandestina. No Verão de 1979, quando se iniciam os Institutos de Verão do National Bureau of Economic Research, apresenta o seu trabalho seminal, depois publicado no Journal of Political Economy. Nos países parecidos entre si, como os do Mercado Comum Europeu, ou os EU e o Canadá, os ganhos do comércio internacional surgem não da diferença de custos mas sim das economias de escala. Nesses casos, não há os problemas de distribuição dos ganhos associados à escassez relativa dos factores (o trabalho ganha com a protecção no país abundante em capital, porque este tende a exportar o bem intensivo em capital, aumentando a remuneração deste factor relativamente ao que aconteceria com menos comércio, e diminuindo a remuneração do factor trabalho). Pouco depois, regressa como professor associado ao MIT, e desenvolve essas ideias em numerosos livros, tornando-se o iniciador da chamada nova teoria do comércio internacional, que hoje é a ortodoxia indiscutida. Nos anos oitenta, a convite do presidente do NBER, passa um ano em Washington e "assume" – como se costuma dizer - a importância dos meios de comunicação na governo e nos mercados. Também se deixa atraír nessa altura pelos encantos da Califórnia e aceita uma posição em Stanford.
É então que começa a forjar a segunda carreira, como ele lhe chama, que se resume em juntar duas palavras consideradas incompatíveis: economista e escritor. O seu primeiro livro de divulgação, que apareceu em 1990, ainda pede desculpa por estar bem escrito, chamando-se a si próprio literatura de aeroporto (compra-se para ler enquanto espera pela avião). Trata-se de A idade das expectativas diminuídas, em que inverte, como Marx fizera a Hegel, todo o raciocínio económico e político que se seguiu à 2ª guerra mundial, segundo o qual as gerações futuras iriam viver melhor do que as gerações passadas e presentes. Na altura da euforia com a queda do muro de Berlim, esta mensagem incómoda arriscava-se a não ser ouvida.
Mas o livro estava bem escrito, e seguiu-se-lhe o primoroso Vendilhões da Prosperidade em 1994, no qual ataca com a mesma intensidade democratas e republicanos por esconder ao eleitorado amricano que não tencionam cumprir as promessas eleitorais. Fazem essas promessas apenas para contrariar as expectativas diminuídas das pessoas, que recompensam com o seu voto os melhores vendilhões de prosperidade. Em Internacionalismo Pop e depois nas suas crónicas para a ciber-revista da Microsoft, Slate, que reuniu no Teórico Acidental, de 1998, desenvolve essas ideias e acrecenta-lhes um poderoso aliado, que é a internet.
A sua página pessoal, www.mit.edu/~krugman torna-se um local de visita constante em todo o mundo, beneficiando os seus escritos das economias de escala que ele antes tinha identificado como fonte segura de ganhos de comércio entre países parecidos (em 1 de Agosto de 1999 equipara as consequências de uma queda precipitada do dólar a um choque negativo na procura mundial, que está já recessiva, e na oferta americana, que está no pleno emprego…).
No regresso do Maine rural para o aeroporto de Portland, onde tinha de apanhar um avião para promover em Manhattan o seu novo livro O regresso da economia da depressão fala-me dos seus dois amores, análise económica e língua inglesa, e da tentação de trocar a consultadoria internacional pelo jornalismo de influência. Percebi depois que a tentação estava já implícita no último capítulo do Teórico Acidental, extraído de uma peça para o New York Times Magazine de 29 de Setembro de 1996, intitulada "Olhando para trás". Para comemorar o centenário do jornal pediam-se impressões a partir de 2096. E ele começa a fazer troça da internet e da economia "imaculada" da idade da informação. No fim do século XXI a educação não interessa e os trabalhadores de colharinho branco desapareceram, só há trabalho braçal. É o mundo da ciência-ficção, uma das suas paixões de infância, a coexistir com a economia.
"Se quiser dedicar-se à investigação científica, só há três opções (as mesmas que havia no século XIX antes da ascensão da investigação académica institucionalizada). Como Charles Darwin, pode Ter nascido rico e pode viver da sua herança. Como Alfred Wallace, o co-inventor menos afortunado da evolução, pode ganhar a vida a fazer outra coisa, e prosseguir a investigação como hobby. Ou, como muitos cientistas oitocentistas, pode tentar cobrar a sua reputação académica, vendendo-se em conferências e seminários.
Mas a celebridade, ainda que muito mais comum do que dantes, continua a não ser fácil de atingir. Por isso escrever este artigo representa uma tamanha oportunidade. Eu não me importo de trabalhar durante o dia na clínica veterinária, mas sempre sonhei ser economista a tempo inteiro; um artigo como este pode ser exactamente o que eu preciso para realizar o meu sonho".
É uma ironia que lhe corre nas veias. Quando procurava a fama em Yale deixou caír um dia: "o que fiz que afectou a vida de mais pessoas foi ter uma avaria no Long Island Expressay (onde passou a sua infância) à hora de ponta!". Em O regresso da economia da depressão vai ao ponto de transformar a sua ironia em pedagogia: "para dar sentido a fenómenos novos e estranhos, tem de se estar preparado para brincar com ideias. E digo brincar de propósito: pessoas dignificadas, sem uma veia trocista, quase nunca oferecem perspectivas novas, em economia ou em qualquer outra coisa."
A sua economia da depressão critica duramente a "teoria da ressaca", segundo a qual a recessão é o castigo devido pela expansão, e vai ao ponto de atacar a frase quintessencial dos economistas de que "não há almoços gratuitos", dando como exemplos a expansão monetária no Japão e controles de capitais nos mercados emergentes. Tudo menos as medidas estruturais que os políticos eleitos, quais os mágicos em Vendilhões da Prosperidade, prometem para nunca cumprir.
Por isso é que, apesar de a sua ironia ser tão incómoda para os visados, a quem chama sempre pelo nome, Krugman dá ao leitor mediano esperança na economia, a ciência do desespero de outrora (título da sua coluna no Slate). Então se a economia ajudou à concretização do seu sonho, pode ajudar o do leitor também!
Mesmo com esta imagem de marca que criou para si próprio no admirável mundo novo em que vivemos, pessoalmente mantém-se o intelectual inquieto e o cozinheiro perfeicionista que o tornam tão precioso para quem o conhece. Casado com Robin Wells, também economista, tratam com desvelo um casal de gatos (o macho é o Albert…) – que os levaram a alugar a quinta no Maine rural, tão longe dos aeroportos que tornaram Krugman célebre.
Não, Paul, não é inacreditável que sejas escolhido como personalidade marcante do século XX. Em Portugal ou em qualquer parte do mundo.
Jorge Braga de Macedo