versão de 6 de Maio de 2000
Instituto de Estudos Superiores Financeiros e Fiscais

Curso Avançado de Comércio Internacional

Sessão sobre

Mercados Financeiros Internacionais

Porto, 12 Maio 2000

Prof. Jorge Braga de Macedo

Programa da sessão

1. Teoria do ajustamento internacional: balança de pagamentos e taxa de câmbio

2. A globalização e os seus detractores: o rescaldo de Seattle

3. Experiência nacional: do real ao euro, passando pelo escudo

4. Reforma do sistema monetário internacional: três ou mais actores?

Abordagem e objectivos

O tópico 1 mostra como a globalização financeira, resultando embora da actividade empresarial privada, determina quer o sistema de trocas e pagamentos internacionais quer as políticas nacionais. No tópico 2, apresenta-se um escorço do debate sobre a arquitectura financeira internacional e os efeitos da contestação às instituições existentes. Passa-se no tópico 3 para a geografia e história do sistema e das políticas, nomeadamente da política orçamental, monetária e cambial, privilegiando a experiência nacional. No tópico 4 discute-se o papel das três principais divisas e dos mercados emergentes na reforma do sistema monetário internacional.

Esta abordagem visa atingir três objectivos complementares. O primeiro é resolver modelos simples de determinação do rendimento agregado e do mecanismo de transmissão monetária e avaliar o efeito quantitativo de políticas orçamentais, monetárias e cambiais alternativas no produto interno bruto (PIB) e no seu preço, bem como na criação de emprego no curto prazo. Estes efeitos devem ser consistentes com a criação de condições para a acumulação de capital, físico e humano, de modo a permitir um desenvolvimento sustentado na economia global. É que a tensão entre mercados globais e cidadanias locais assenta em dois pressupostos, cuja compreensão representa outros tantos objectivos da sessão: como não há actividade empresarial sustentada com ameaças à propriedade privada das pessoas, no presente ou no futuro, esta deve ser garantida através de medidas tão próximas quanto possível do cidadão. Por outro lado, as pessoas esperam não só o respeito dos seus direitos e garantias fundamentais mas também a liberdade de circulação de bens, serviços ou activos financeiros.

O segundo objectivo é pois conhecer as regras e instituições orçamental, monetária e cambial correntes nas democracias nacionais avançadas e os mecanismos de coordenação externa das políticas. Mostra-se como a actividade económica nacional e internacional nas democracias avançadas se enquadra num conjunto de regras e procedimentos que reflectem não só valores e princípios económicos mas também éticos e políticos. Alguns destes valores resultam da carta das Nações Unidas mas como a ex-URSS acabou por não participar nas organizações financeiras internacionais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, com sede em Washington, DC, nem no GATT (Acordo Geral sobre Pautas e Comércio), hoje Organização Mundial do Comércio (WTO), com sede em Genebra, verificou-se desde cedo uma divergência entre as organizações político-diplomáticas e as económico-financeiras. A combinação dos valores e princípios económicos com os éticos e políticos é considerada própria dos países industrializados da área da OCDE, organização fundada em 1948 em Paris. Dentro dos países industrializados sobressaem os sete maiores, o chamado G-7, que reúne Estados Unidos (EU), Canadá, Japão, Alemanha, França, Inglaterra e Itália, além do presidente da Comissão Europeia e, mais recentemente, da Rússia. A área da OCDE também se chama a área trilateral, por incluir três polos de desenvolvimento e democracia mundiais, a América do Norte, o Japão e a União Europeia (UE), incluindo esta os alguns candidatos à adesão. Os valores e princípios trilaterais têm alastrado para os mercados emergentes a Sul (México, Coreia, já membros da OCDE; India, Brasil, África do Sul, Argentina) e para Leste (Rússia, oitavo membro do G7, talvez China e Indonésia), o que levou à criação de um forum próprio, o G20. Espera-se que os países africanos lusófonos também venham a beneficiar destes valores, como aliás prevê a Declaração constitutiva da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), organização fundada em 1996 em Lisboa.

O terceiro dos objectivos complementares, perceber como o comércio e as finanças internacionais afectam o equilíbrio conjuntural das economias abertas e a prosperidade dos povos, projecta os modelos e as regras à escala global, para tentar encontrar as condições da convergência entre economias avançadas e emergentes. Em tempos normais, as condições resultam mais das políticas do que dos recursos. Contudo, os mercados financeiros internacionais passam por períodos turbulentos que podem penalizar o processo de convergência global das políticas. A compreensão da chamada crise financeira internacional e dos modos de a resolver ajuda a entender se e como será possível retomar o processo de convergência internacional de políticas interrompido em meados de 1997. Apesar da referida difusão das regras de política da OECD para Sul e para Leste, continua a haver grande tendencia para considerar as diferenças culturais impeditivas de uma boa política económica à escala mundial. A África é talvez a mais atingida com essa atitude negativa, embora a América Latina não costume andar longe. O falhanço da ronda de Seattle da WTO, planeada para o Outono de 1999, tornou espectaculares as resistências contra a globalização na própria área da OCDE.

Páginas e livros úteis

Leituras suplementares

Do próprio (mais em prof.fe.unl.pt/~jbmacedo lista incluí trabalhos em coautoria)

Bem Comum dos Portugueses, Lisboa: Vega, 1999, 2ª edição (especialmente pags.pags.112-166, 199-216, 290-307).
Mercado monetário e de valores mobiliários: Relações de dependência à escala mundial , Instituto dos Valores Mobiliários, Setembro 1999.
Portugal's European Integration: the limits of external pressure, Nova Economics Working Paper nº 369, Dezembro 1999.
Moving the escudo into the euro, CEPR Discussion Paper nº 2248, Outubro de 1999 (password necessário) ver tabelas 1 e 2, 3a, 3b, 4a, 4b and figuras).
Financial Crises and international architecture: a Eurocentric perception, OECD Development Centre, Maio 2000.

De outros autores

Richard Levich, International Financial Markets: Prices and Policies, Irwin McGraw Hill, 1998
Paul Krugman, The accidental theorist, New York: Norton, 1998 (especialmente "In Praise of Cheap Labor. Bad Jobs at Bad Wages are Better than No Jobs at All", "Making the World Safe for George Soros", "The Tequila Effect", "Bahtulism. Who Poisoned Asia's Currency Markets? ", "Looking Backward") mais em www.mit.edu/~krugman e Krugman). .
Moses Naim, "Lori’s war", Entrevista a Lori Wallach, Foreign Policy, Primavera 2000
Joseph Stiglitz, "The insider", The New Republic online, Abril 2000.
Safeguarding Prosperity in a Global Financial System: The Future International Financial Architecture, Council on Foreign Relations, October 1999